A fábula do asno e do texugo, ou A FUGA DA RAZÃO

Corria o ano de 451 depois de Cristo. Nas bordas de uma pequena floresta às margens de Milão, um asno e um texugo esbarraram-se, ambos em fuga da cidade, incendiada por Átila em sua fúria bestial.

Libertos do cativeiro pelos irmãos caos e chama, corriam por suas vidas tênues, carregados de sentimentos entre suas penugens chamuscadas. Um deles trazia por bagagem extra um pequeno e tilintante alforge que, de passagem, furtara a um corpo humano justiçado pelos irmãos siameses.

Temeroso da repentina solidão e do silêncio da floresta, terror medievo, e vendo que seu companheiro de ocasião já imbicava por uma trilha da mata, o que portava o pequeno alforge feito da pele de um seu semelhante propôs ao outro:

— Venha comigo, companheiro! Vamos por este outro caminho, ele dará numa pequena cidadela.

O segundo animal hesitou por um momento, volvendo um olhar de terno espanto para aqueloutro trânsfuga.

— Posso lhe dar todo esse dinheiro — antecipou-se o primeiro, chacoalhando as moedas do bornal.

— Dinheiro? O que faz cativos os homens?

— Cativos?? É ele quem lhes compra a alforria! E lhes descerra a janela dos sonhos.

— Com ele poderei comprar sonhos?

— Comprar? Não; com ele você poderá realizar cada um deles.

— Mas realizar um sonho é como matá-lo.

— ???… Ora!!! Nunca ouvi tão grande insanidade! Que dizes, néscio?!!

— Digo que passaste tempo demais com humanos — arguiu a besta, antes de mergulhar no silêncio verdejante.

Sammis Reachers

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