Era uma manhã de um mês de abril. E nossa amiga nos disse: “Fábio, você acredita que sempre sonhamos em entrar, mas as portas sempre fechadas e, veja, acabaram de ligar, eles estão pedindo professor de português… mas nós não temos ninguém no gatilho para enviar”…
Saí de lá com essa pulga atrás da orelha. Ninguém para enviar?! E eu? E nós? Era preciso falar com a Lu. Seria preciso tentar, jogar tudo para o alto e seguir acreditando nos sonhos que Deus derramava sobre nossas vidas. “Ir aonde ninguém mais queria ir” – sempre dissemos isso um ao outro.
Desde o início do nosso namoro na Faculdade Católica de Brasília, horário do intervalo, em frente à lanchonete, tracei os meus sonhos para aquela linda e também empolgada menina de olhos verdes: “Lu, vai ser assim, primeiro a gente vai para uma cidadezinha do interior, pequenininha, dessas que ninguém quer ir, alguma cidade em que possamos ajudar aqueles que trabalham com povos indígenas. Ficamos lá por alguns anos e depois vamos para a África, quem sabe um país muçulmano, portas fechadas. Mas isso só quando meus cabelos estiverem bem brancos, porque eu sei que os árabes respeitam mais os de cabelo branco… E depois? Depois, quem sabe com uns 70 anos, continuaremos sempre além, enquanto Deus nos der fôlego de vida para vivermos para a glória dEle”! E naquela nossa juventude sonhadora, ríamos um do outro e sentíamos nossos corações em chamas: “Lu, eu desperdicei a minha adolescência trabalhando para o diabo, mas agora eu quero investir o meu tempo para falar de Jesus”.
De repente, todos aqueles sonhos da faculdade pareciam se iniciar. Precisávamos, contudo, fazer tudo bem planejado para não parecer apenas devaneios sem fundamento, até porque só nós sabíamos da trajetória que nos havia trazido até aquele ponto. Então, sem ninguém saber, fomos conhecer a cidade em que moramos hoje. Nosso coração quase parado no peito, tudo finalmente começando e a sensação inequívoca de que estávamos no centro da vontade de Deus. Nem imaginávamos, porém, que nos planos de Deus havia mais, havia algo ALÉM! Na cidadezinha, houve o inesperado convite: “Por que só ajudar aqui na cidade? Por que vocês não entram e não conhecem uma aldeia indígena?”. Era julho de 2006! De volta para Brasília, já sabíamos qual o povo e, então, começamos a nos preparar ao desconhecido. Começamos o contato com eles, com a aldeia, com a liderança para aquela que seria a nossa 1ª entrada na aldeia (janeiro de 2007). “Lu, você sabe o que vai acontecer se formos? Você sabe o que vai acontecer se tudo daqui para frente der certo? Vamos ter que deixar para trás nossas famílias, a estabilidade dos nossos empregos públicos e teremos uma forte oposição por levarmos nossas filhas (na época com 3 e 1 anos) para o meio da mata”! Por isso tudo, precisávamos assentar nossos sonhos sobre terreno sólido, antes de compartilharmos com a Igreja e a família tudo o que estava acontecendo. Portanto, mais uma vez, seguimos sem dizer nada para ninguém, apenas a um seleto grupo de intercessores. Dentro do carro, iríamos mais uma vez de Brasília rumo ao fim do mundo. Uma família urbaníssima de classe média, que sempre fora criada na cidade e nunca se aventurara para além do seguro e do preciso, estávamos nos preparando para uma viagem que até hoje nunca mais terminou. Dentro do nosso Gol prata 2003, lembrei de “Manuel, o audaz”, o jipe amarelo que levava a turma de músicos mineiros do Clube da Esquina para tudo que era lado. Enfim, batizamos o nosso Gol de “Car palo” numa alusão ao povo com o qual estávamos começando a trabalhar e conhecer: “Car palo, o audaz”.
Por que estou escrevendo sobre isso? Porque “Car palo” estava bem velhinho, motor cansado e barulhento e tinta da lataria toda descascada depois de todos estes anos de estrada e sonhos. Ontem, nós o entregamos como parte do valor do novo carro que compramos com a ajuda preciosa dos meus sogros… “Car palo, o audaz” foi testemunha de um tempo em que acreditamos que valia a pena crer nas promessas de Deus sobre nossas vidas a despeito das dificuldades e dos obstáculos que viessem pela frente. Dessa maneira, escrevo para dizer que nossos sonhos se renovaram todos e que ainda estamos na estrada para “viajar/ e no ar livre/ corpo livre/ aprender ou mais, tentar”! Acreditando sempre no Deus que derrama sonhos e visões sobre nossos corações para a glória dEle. E como ainda cremos nAquele que começou esta boa obra e que haverá de concluí-la (sim, porque só Deus poderá dizer quando o nosso tempo aqui terminará!), batizamos o nosso novo carro de “Car palo II, ainda mais audaz”! E como diz essa lindíssima música: “Vamos aprender ou mais, tentar”! Obrigado a todos que estiveram conosco em oração, amizade e carinho e ainda estarão pelos anos que Deus nos der nesta estrada em que estamos.
Fábio Ribas