O sol lá fora está de rachar… Por aqui, mesmo com dois ventiladores ligados a coisa não está muito diferente, porque tenho de manter as janelas fechadas e aquele ventinho de 18 km por hora, que o “Climatempo” detalha, não me favorece em nada. Por quê? Deixe-me contar…
Neste exato momento, estou ouvindo um carro de som que pode estar a um quilômetro ou um quarteirão de casa, vendendo 30 ovos por 10 reais; mas não é só, tem também abacaxi de Marataízes e alho de Alcobaça. Aceita-se cartão de crédito e débito, dá até para fazer um pix…
Concomitante ao alto falante e a voz esganiçada do locutor, outro carro toca um funk estrondosamente perturbador e vulgar. Não entendi muita coisa, mas parece que certos glúteos têm vida própria e não pertencem a corpo algum, têm RG e CPF, e o “cantor” se refere a eles por um apelido íntimo…
Na esquina contrária, alguém ouve um misto de pagode e sertanejo universitário, uma incongruência musical e estilística que transforma a coisa toda em sessão de tortura.
Em frente de casa, existem dois bares, que para a minha felicidade, durante a semana, abrem em horários alternados: um vai das 17 às 22 h, enquanto o outro abre assim que as portas do primeiro fecham e vai até altas horas, varando a madrugada. Nos fins de semana, abrem juntos, as 17 e sem hora para acabar. Tem de tudo, cantoria sem ritmo e desafinada, altercações escandalosas, crianças chorando nos colos ou em carrinhos, e um número exorbitante de mulheres. Cheguei à conclusão de que pior do que um homem bêbado é uma mulher bêbada. Chego a acreditar que a proporção é de 5×1, entre ébrios e ébria, tal a capacidade escandalosa das cordas vocais femininas, sob a influência de álcool e outras “coisitas mas”.
Alguém pode dizer: problema seu! Quem mandou não se dar bem na vida e mudar para um condomínio fechado onde, para se ver o vizinho mais próximo, precisa pegar um táxi?
Contei o drama para o meu filho. Ele comprou um terreno em uma área rural, e depois de algum tempo, quando estávamos concluindo o projeto da casa, novos vizinhos se mudaram e a mesma overdose sonora urbana se ouvia dia a dia no meio do mato — sem contar as reuniões com churrascos, truco e histeria despropositada em volta da piscina, e nela também. Moral da história, se alguém quiser comprar baratinho um terreno de cinco mil metros, é só me contatar.
Não tenho nada contra o som que as pessoas ouvem, o gênero e estilo musical, desde que eu não seja obrigado a ouvir a porcaria também. Mesmo se fosse um “jazz cabeça”, Bach e Rachmaninoff, ou Ernesto Nazaré, nos momentos de estudo, escrita e trabalho quero apenas o silêncio — e nada mais. Já me aconselharam um fone de ouvidos com cancelamento de ruídos. Corri à cata de um dos melhores: Bose — nem ele foi capaz de encerrar a orgia tonitruante dos acólitos, a infernizar meus ouvidos noite e dia.
Alguém falou que estou ficando velho, mas acho que exatamente por isso mereço consideração, ora!
Bem, deixa eu ir lá comprar o abacaxi e um pouco de alho, para ver se o ambulante se satisfaz e muda o local de vendas.
Quanto os pagodeiros, funkeiros, botequeiros e botequeiras, a polícia nem quer saber mais, e a prefeitura aplica multa sobre multa — eles não pagam e fica tudo por isso mesmo.
Juro que já pedi a Deus para diminuir a minha acuidade oitiva — não quero ficar totalmente surdo —, e bastaria desligar o aparelho para o silêncio reinar… Mas, se Paulo fez um mesmo pedido três vezes e foi negado, por que comigo seria diferente?
Sim, ele disse ao apóstolo: a minha graça te basta!
É, e basta mesmo!
Enquanto corro a pegar a carteira.
Torcendo para o abacaxi estar maduro.
Jorge F. Isah