A MULHER DE BRANCO

Não acredito, hoje, em fantasmas ou em almas penadas, mas sempre em minha casa se ouvia estórias que chamaríamos de terror. Mas, quando isso acontecia, era sempre à noite, na época do frio. A precariedade das construções, às vezes sem laje, forro de madeira, etc., era o chamariz para o aconchego da família. E não dá para dizer que certos causos não faziam até pinguim arrepiar.

Um detalhe que a maioria não sabe e muitos “mestres” escondem, é que “estória” se refere a contos, mitos, enquanto história    – com “h” – deveria falar de algo real, verídico, o que, sabemos, raramente acontece. Isso se dá, essa diferença, em várias línguas: italiano, espanhol, português…

Vamos, porém, ao que interessa: as estórias de mamãe, a minha madrasta, eram confirmadas pelo segurar do queixo do meu pai, ou ao se levantar da cadeira    e balançar a cabeça. Sentávamos no chão para ouvir, a cada noite, uma estória nova ou velha, da qual gostávamos, e eram repetidas com algum acréscimo novo. Este é um conto bem engraçado.

Lembro-me que mamãe não era de narrá-las todas as noites, pois o cansaço da lida, com os anos, deixava-a em petição de miséria. Simplesmente, desmaiava antes de deitar-se. Mas, quando contava, era uma especialista em construir frases, deter-se nas pausas, empostar a voz e cativar a atenção de todos: uma mestra!

Nessa ocasião, ela falou de um homem, riquíssimo dono de muitos hectares no interior. Um “coroné” de antigamente. Tinha uma grande torradeira de farinha de mandioca e uma floresta de eucaliptos. Com muitos capatazes, era também orgulhoso e gostava de mostrar suas posses, repetindo a cada novo encontro uma lista quase infinita de bens — mesmo aqueles calejados da sua ladainha demonstravam respeito, talvez medo, em ouvi-la como se fosse inédita.

Sempre que se levantava, bem cedo, às quatro e pouco, cinco da manhã, tomava o café de costume, abria a porta da cozinha para ver o seu cavalo preto, bonito e garboso, à espera do dono. O fazendeiro tinha um apreço pelo corcel, de maneira mais do que especial. De todo o seu patrimônio, aquele certamente era o que lhe dava maior orgulho. As lidas do dia começavam com ele e terminavam com ele. Desde que amansado, apenas o coroné o montava — ninguém mais.

Certo dia, o homem saiu para a roça, a supervisionar os serviços e os trabalhadores. Voltou para almoçar e depois pôs-se de novo rumo à roça. Era o roteiro diário, menos aos domingos. Sempre voltava ao pôr do sol.

Porém, nesse dia, ele não voltou. A esposa acostumada com a rotina, ficou aflita. O que teria acontecido, afinal? Sentou-se à beira do fogão a lenha constantemente aceso. Só quem teve um em casa sabe o que estou dizendo. A noite estava linda, céu estrelado, lua cheia como um enorme queijo no céu. Nada anormal, nem tempestade, raios, chuva, absolutamente nada. O capinzal, as folhas dos pés de mandioca, o horizonte envolto no brilho da lua e estrelas. Mas nada do homem e do cavalo chegarem.

Ela cochilou e, ao amanhecer, o bater à porta em um ritmo nada cadenciado, a despertou do sono mais mal dormido de sua vida. Ela esperou, temendo um bicho, talvez uma onça, ou sabe-se lá o quê. Titubeou, mas a curiosidade venceu-a e abriu a porta. Era o cavalo, com as patas em brasa, assustado e olhando fixo para ela, como se pedisse ajuda. Cadê o marido? Afinal, ele podia ter vários defeitos, mas mulherengo, ter amantes, não era um deles.

Imediatamente, ela chamou um tropeiro para acompanhar o cavalo. Seguiram-no a pé, e o cavalo — pois, como disse, ninguém mais o montava além do coroné – à frente, o tropeiro, e a esposa segurando a barra do enorme vestido.

Depois de algumas léguas, encontraram o homem caído no chão, vivo com os olhos esbugalhados como se tivesse visto o capiroto em pessoa. Colocaram-no em cima do cavalo e voltaram para casa.

A esposa trouxe o homem ao juízo dando-lhe água e um bom café. Ainda muito assustada, ela perguntou:

“O que aconteceu,‘ômi’?

Ele respondeu:

“Estava eu na estrada e de repente o Alazão empacou!”

“Aí, eu fiquei nervoso, pois ele nunca fez isso!”

“Aí, eu peguei o chicote para fazer o Alazão andar!”

“Quando olhei para a frente, o que eu vi?”

“Vi uma mulher com uma roupa branca longa… aí eu pensei, que droga, sai da frente que eu quero passar!”

“A mulher nem ligou e continuou a avançar voando para cima de mim e do Alazão!”

“O Alazão levantou as patas dianteiras ficando em pé igual gente…”

“Aí, eu dei uma chicotada na mulher que vinha voando pra cima da gente… nisso, deu uma explosão igual tiro de canhão e eu caí no chão… e só acordei agora.”

Se recompôs.

“Mas tem uma coisa: se ela aparecer de novo, além de uma chicotada de domar onça, engatilho a garrucha e espingarda. Ela vai ver só… Lá vou eu ter medo de mulher, se nem de homem eu tenho, uai?”

Esse aí, nem alma penada lhe tira a empáfia.

“Põe mais café, mulher! E você, dê água e capim novo para o Alazão!”

Mas sempre que alguém tocava no assunto ou naquele caminho, o coroné mudava de prosa.

E voltava para casa bem antes do entardecer.   

Rosemare Rocha

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados