O título em português, pomposo e sem significado, ficou “Um lugar secreto”, mas em bom macarronês traduz-se: “John e o buraco”. Esta é a trama do que a mídia considerou um suspense psicológico, mas eu acrescentaria, ou melhor, definiria como masoquismo psicótico. Em linhas gerais, o filme se resume a isto: John, um adolescente de 13 anos, deslocado como a miríade de milhões de adolescentes inconvenientes mundo afora, e um buraco, um bunker.
Filho de pais ricos, a morar em uma casa confortavelmente instalada em uma floresta, com todos os confortos e tecnologias disponíveis, juntamente com a irmã mais velha; John é inseguro, curioso, atrapalhado e desconcertado. Seu olhar distante e frio, sem emoção, perpassa toda a película. Vive da estupidez etária e parece buscar um sentido ou razão para a vida. Eis que, do nada, descobre nos arredores da casa um bunker inacabado, e maquina um jeito de transpor os seus entes queridos para lá, após perguntar ao pai a razão de se construir aquilo e ouvir: para se proteger de… uma tempestade, de um ataque da natureza. Neste momento, elabora o plano e leva a família para o tal buraco.
Segue-se, em curso, situações descabidas, irreais, onde a melhor amiga da mãe, a polícia e o jardineiro, afastados da residência com farrapos de desculpas adolescente, parecem enxugar gelo o tempo todo. Ninguém entende a gravidade da situação, com o sumiço da família e a presença desgovernada e aleatória do filho na casa.
Também, não existe uma explicação plausível para a atitude de John, mesmo que doentia, vingativa ou alucinada. Fica-se a ver navios. O filme é um emaranhado de acasos, a deixar o espectador perplexo no seu vazio. Talvez o buraco simbolize apenas e tão somente o hiato, a lacuna, o vácuo da película.
Não acrescentarei mais detalhe ou o final, para não ser o desmancha prazer do corajoso a arriscar-se em assistir tamanha droga. E ver o Michel C. Hall como Brad, o patriarca, só me deu saudades do tempo em que interpretava “Dexter”.
Ah, existe ainda outra história paralela, de uma garotinha, Lily, abandonada pela mãe, com o “argumento” de já ter 12 anos e ser necessário assumir-se adulta.
Entre idas e vinda, parece haver duas mensagens: a primeira, ligada a John, de se pensar um milhão de vezes antes de ter um filho. Quanto a Lily, seria melhor não ter nascido ou ter uma mãe. Quanto aos pais, Lily não sabe onde está o seu, e John tem de conviver com a covardia passiva e indulgente de Brad.
Ao final, ficou-me a impressão de não haver uma lixeira suficientemente apropriada para se jogar “John and the hole”… Nenhum buraco merece tanta porcaria.
Jorge F. Isah