Tenho recontado aqui nessa coluna casos, “causos” que realmente ocorreram e que fazem parte das minhas memórias. Por que disse recontado? Porque simplesmente, a cada vez que me lembro, reconto a meus filhos, ao meu marido, perpetuando-as enquanto eu viver.
A tia Cotinha, uma das irmãs de meu pai, e quase uma personagem da qual sei pouco, porque pouco me contaram dela, e porque só vim a entender melhor a minha família, aliás a família do meu pai, muito mais tarde do que outras crianças e adolescentes entenderiam. Na verdade, penso que há casos até de adultos que nunca entenderam porquê estão neste mundo, muito menos as suas origens e de seus familiares.
Bem, a tia Cotinha casou-se. Casou-se talvez porque sexo no seu tempo, na virada do século XIX para o XX, embora todo mundo fizesse, pelo menos publicamente não era como hoje sem dar satisfações sociais ou pagar algum preço. Hoje se paga? Quanto mais estranho e diverso, parece até ser mais louvável… É, o mundo mudou, ou pelo menos por aqui, Brasil, muito mudou.
A tia Cotinha casou-se, e com um homem (há pouco tempo esse detalhe nem precisaria ser mencionado, mas hoje, essa “nota de rodapé” é quase obrigatória). Não se casou porque se apaixonara perdidamente pelo seu homem, ou ele por ela. Mesmo porque, sem a “Jequiti”, duvido que eles tivessem atributos tão esteticamente delineados como hoje: bom perfume, boa maquiagem, seios e bunda bem definida, e o Photoshop de primeira, etc.; se é que me entendem.
Ele, o marido, peão de fazenda, de trabalho rude, devia ser desengonçado, pernas arqueadas, dentes faltantes ou desalinhados, a fala cantada e arrastada, frases incompletas, pronúncias erradas. Devia ser um casal típico de uma piada que meu marido sempre conta. Um casal com pouco assunto e investidas sentimentais pouco claras. Não vou contar a piada aqui, pois não sei contá-la, ainda mais escrevendo.
Quem casa, quer sexo, embora muita gente queira antes de casar, a qualquer hora, em qualquer lugar, e se gabe, e culpe os hormônios. O fato é que ele, como homem, sempre quis e ela aparentemente não se sabe, pelo menos com ele… Será?… Seria?
Casaram-se. Deve obrigatoriamente ter havido uma cerimônia na igreja católica, a única que existia e que conheciam. O povo de perto, parentes, amigos, assistiram. O padre os abençoou. Um almoço com relativa comilança, umas pingas para os adultos, muita conversa, risos e, claro, depois de tudo, as núpcias, na casa isolada do casal em algum canto da cidadezinha. Muito lindo, na simplicidade do seu tempo; e, convenhamos, eu dou muito mais valor do que à falsidade e exibicionismo de hoje.
O tempo passou, e depois das núpcias que não tenho como saber como foram, se houve detalhes a serem descritos, já que as fofoqueiras talvez soubessem ou não, não estão mais aqui para contar. O que vim a saber é que, após algum tempo de casados, no papel e no padre, após cada dia de trabalho na roça ou como tropeiro, o marido chegava a cavalo para descansar, jantar e comer, se é que me entenderam. Encontrava sempre a tia Cotinha queixosa, com ares de doença e desanimada para qualquer coisa e muito mais para as investidas do marido fogoso (estou apenas exercitando a imaginação). Com rodelas de batata colada na testa, queixava-se sempre de dores de cabeça. Isso foi acontecendo, dia após dia, após meses, até que, em dada ocasião, o marido chegou mais uma vez montado em seu cavalo, a tia Cotinha, apareceu na porta com a mesma cara queixosa, as rodelas de batatas coladas à testa, dizendo-se com muita dor de cabeça. Não se sabe se foi conselho do cavalo ou decisão própria do tio… não me lembro realmente do seu nome… O meu tio, marido da tia cotinha, conta-se, dessa vez nem apeou do cavalo, deu meia volta e nunca mais se teve notícias dele.
A tia Cotinha, nunca mais se casou, não teve filhos, não adotou nenhum e morreu velha de dias em sua pequena, mas boa propriedade. A gente ri quando repito essa história. Não há nada de novo debaixo do céu, como reza a velha e boa Escritura. Ou se gosta muito da coisa ou a nega.
Igual, sempre.
Rosemare Gomes