Algumas considerações sobre FAHRENHEIT 451

O livro é uma antevisão da sociedade atual, imaginada há mais de 70 anos por Ray Bradbury; onde as pessoas são guiadas pela ditadura da mídia, e o próprio Estado encarrega-se de dominá-las intelectualmente, esvaziando-as, e assim, tornando-as felizes e produtivas.

É uma crítica ao controle social por meio da comunicação de massa, em especial a tv, que se encarrega de diluir as emoções e a humanidade nas pessoas.

Escrito com tintas “Noir”, Fahrenheit 451 é uma novela distópica semelhante a 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica, na qual qualquer material literário que não seja produzido pelo Governo (as chamadas “cartilhas” tão em moda no Brasil; e que no livro são igualmente imperativas e pouco elucidativas) são considerados proibidos e destinados à incineração.

Fahrenheit 451 é a temperatura em que o papel entra em combustão.

Ironicamente, os bombeiros são encarregados de “pôr fogo” e incendiar os livros apreendidos ilegalmente. Revela-se a distorção provocada por ideologias totalitárias, as quais recriam e controlam fatos e ideias ao sabor dos seus interesses.

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O homem está isolado, abandonado, acomodado, esquecido em meio à burocracia, e acaba por perder-se moralmente, está deslocado em meio ao caos e a desordem que o Estado meticulosamente arquitetou; e a pergunta é: Pode-se crer no homem? É possível revivê-lo num mundo em que é dominado completamente pelo ascetismo intelectual? Ray quase assemelha o homem a um animal doente, ferido, agonizante em sua (anti)humanidade.

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Guy Montag é um bombeiro. E o mundo começa a se desvendar diante dos seus olhos a partir do momento em que conhece Clarisse no metrô. Para uma sociedade ideologicamente estruturada na ausência de opinião, tê-la e ser crítico é uma postura antissocial, uma ameaça (como ler livros é crime, ter opinião também, especialmente se ela for conflitante com o padrão estabelecido pelo Estado: a ignorância como elemento de paz social – ainda que não se respeitem e a paz seja uma ilusão). Clarisse surge extravagante e perturbadora para Montag, que se desnorteia com os seus pensamentos “fora do padrão”.

Ele se surpreende com o olhar indiscreto com que ela vê o mundo.

Ray acena para Clarisse como o antídoto para aquela orbe caótica e indiferente.

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O olhar indiscreto de Clarisse para com o mundo é arrojado, escrutinador, o qual nos leva a observar, deliciar e admirar a obra de Deus, e, sobretudo, para reverenciá-lo por sua estupenda Criação.

No mundo de Fahrenheit 451 os livros são, ainda que parcialmente, a causa do mal. O homem, portanto, para ser feliz precisa subverter o antigo patrão, abster-se das ideias, da moral, contentando-se em ser feliz à maneira imposta pelo Estado. Como Roma fazia com os seus súditos, o Governo dá ao homem a impressão de felicidade através do extravasar sentidos; por exemplo: dirigir em alta velocidade, atropelando coelhos, cães e pessoas, é uma forma de exceder as percepções e substituir a consciência pelos impulsos. A tv é chamada de “família”, e na impessoalidade das “relações” é que são travados os “conhecimentos”, os parentescos, suprimindo as relações humanas tradicionais; tudo com o discurso de que assim é melhor para “todos”.

Montag começa a se questionar e a avaliar a vida. Busca uma “causa” para viver, para além das cartilhas governamentais. Já não lhe basta mais ser como sempre foi, sem contestar mas também sem responder.

Quer o apoio da mulher, mas encontra apenas medo, preconceito e frieza.

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Não há como não comparar muito do que Bradbury criou com o que vivenciamos. Há uma censura institucional, formalizada gradativamente por leis que coíbem e restringem cada vez mais a liberdade, não visando protegê-la, mas proteger os interesses ideológicos do Estado e de grupos minoritários.

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Deus está sendo alijado do debate, onde a sanha inimiga se encarregará de trazer, como em Fahrenheit 451, tempos em que o pensamento e a opinião serão crimes punidos severamente (vide a tentativa de regular e cercear as mídias sociais). A exemplo do que ocorre em países comunistas e islâmicos, o homem não servirá nem mesmo como estatística, um número. Até isso lhe será tirado.

No livro, as citações sobre Deus são expressões vazias, como velhos ditados que ninguém mais sabe o significado. Como todos os livros, a Bíblia foi expurgada, sobrando os manuais e códigos segundo o aparato estatal.

Bradbury descreve um mundo improvável em sua completude, não por causa do homem, mas porque Deus, em sua soberania, jamais o permitirá. Apesar do que se revela aos olhos, a palavra final é divina.

Montag e o dilema: continuar a trabalhar como bombeiro? Entregar todos os livros que amealhou e escondeu por anos? Deixar que se queime o último exemplar da Bíblia?

Enquanto isso, Mildred, sua esposa, clama pelo seu amor, para que destrua a biblioteca, e em seus delírios virtuais não tem resposta para a pergunta: o “palhaço branco” e a “família” (os personagens de tv) a amam?

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No mundo de Fahrenheit 451 não há lugar para a culpa, para o pecado. Se ele existe, o incinerador, ou o incêndio, se encarrega dele. A moralidade não tem espaço, e se há um senso moral/ético, ele deve ser destruído. Há apenas a consciência estatal. E Montag sentiu-a na pele, quando ele e os bombeiros, uma noite, pararam com a “salamandra” diante da sua casa.

A justiça do Estado tem de ser imediata, não há tempo para julgamento, defesa, provas, apenas sentenças imediatas. O “mal” tem de ser extirpado instantaneamente para o bem e a sobrevivência do estado/deus.

Os bombeiros são investigadores, réus, juízes, verdugos, basta uma única denúncia, podendo vir de dentro da própria casa.

A responsabilidade existe através das diretrizes governamentais, e Mildred, como uma espiã, expõe Montag, o traidor, diante da traição consumada por ela, diante da traição dos amigos, diante da traição dos vizinhos; não há compaixão, somente indiferença e um dever a cumprir.

E o pecado, tornado público, não pode ser soterrado nas cinzas.

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Avaliação: (****)

Título: Fahrenheit 451

Autor: Ray Bradbury

Editora: Biblioteca Azul

Páginas: 272

Jorge F. Isah

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