A que ponto chegamos: no domingo à noite, saí de carro com a minha esposa, e começava a chover. O nosso destino ficava em uma região relativamente “tranquila”, mais residencial, com pouco comércio, e não havia como estacionar nas ruas. Depois de muito rodarmos, encontramos uma vaga a duas pequenas quadras, mas para caminharmos até o nosso destino, teríamos que passar debaixo de um viaduto. Desistimos, é claro.
Viver em cidade grande é assim. O medo toma conta das pessoas. Para quê arriscar? O melhor é não sair à noite. Nem durante o dia. O ideal é nos trancarmos em nossas masmorras, pedir comida pelo Ifood e colocar o lixo no elevador para o porteiro pegar. E tem gente que ainda tem a cara de pau de dizer que a situação no Brasil melhorou.
O problema é que a gente não pode se defender. Se sairmos armados, certamente, seremos presos, mas os ladrões estarão livres. Nas raras vezes em que chegam a ser capturados, passam pelas audiências de custódia e no mesmo dia estarão nas ruas, para praticarem o seu ofício. Não é ironia: para o atual governo, roubar é um trabalho como outro qualquer. Os jovens começam furtando celulares, para tomarem uma cervejinha, e depois evoluem para ações mais ousadas, até se tornarem políticos. É o processo natural.
O sindicato dos bandidos agora reivindica férias, 13º salário, descanso semanal remunerado (na escala 5 x 2), fundo de garantia, seguro de vida e aposentadoria aos 50 anos, em função da periculosidade. Pode estar certo que vai ter deputado propondo esses benefícios.
Quem defende bandido, bandido é. Sempre desconfie de uma pessoa que fica relativizando o crime, atribuindo a culpa à injustiça social, à falta de oportunidades de emprego, ao imperialismo, aos embargos econômicos. Pobre não é bandido. Pobre trabalha, passa por dificuldades, mas dá a volta por cima e prospera. Bandido não quer trabalhar. Bandido quer moleza. Bandido é bandido.
Michel Salomão