Não se tem muito a dizer quando o assunto é dinheiro, mas, mesmo assim, por falta de assunto melhor, vou me arriscar ao óbvio ululante.
Têm os mãos-abertas que não somente conseguem gastar os próprios bens e, não satisfeitos, teimam em dissipar também os alheios. Não é difícil encontrar muitos deles nas feiras, shoppings, ruas e avenidas, a quebrar vidros de carros, arrombar fechaduras, estourar caixas eletrônicos ou, simplesmente da bicicleta tomar aquele celular comprado, e ainda não pago, em 12 parcelas, nas Casas Bahia.
Dizem os entendidos, e quem sou eu para questioná-los, existir um estágio progressivo — disse progressivo, e não progressista —, de trombadinha a político, espécie de colação de grau ou algo do gênero, mas enquanto a FGV não fizer um estudo detalhado, não se pode afirmar a correlação entre os gatunos dispersos nas cidades e arredores e os concentrados no Planalto e adjacências… ainda que sejam gatunos.
Outro dia, fui trocar o óleo do carro. O mecânico olhou a vareta e identificou, não sei como, que os cabeçotes precisavam ser retificados ou trocados.
— Como assim? — Eu perguntei, estarrecido — Você descobriu isso apenas observando o óleo?
— Meu amigo, o óleo é a chave de todos os problemas no carro… — Parecia um sábio explicando os enigmas da vida e do universo — Eu jamais desprezo o óleo, e não sou displicente como os meus colegas… Aposto o que quiser: os cabeçotes precisam de retífica! — Sentenciou, convicto.
Por fim, disse não fazer retífica, mas indicou outro colega tão ou mais especializado em óleo que ele; e o seu diagnóstico nada tinha a ver com ganhar dinheiro de qualquer maneira, pois era honesto e não possuía qualquer interesse em mexer no motor. Estava apenas e tão somente fazendo o seu trabalho, da melhor forma possível, dando o diagnóstico mais honesto e ético que um profissional pode dar.
Não me interessei. Ele parecia charlatão, e desisti de trocar o óleo. Saí do lugar ouvindo-o dizer, quase aos berros:
— Qualquer profissional íntegro e idôneo confirmará o que digo!!
Outro mecânico me garantiu que o óleo podia ser usado por muitas centenas de quilômetros ainda, e não era preciso substituí-lo. Enquanto um terceiro, me aconselhou a vender o carro e comprar outro, porque aquele não tinha mais recuperação e conserto.
A mesma situação envolve dentistas, advogados, médicos, camelôs, cartomantes, pedreiros, encanadores e palpiteiros em geral. Que dirá as urnas, depois das eleições.
Por falar em eleições, um amigo candidatou-se a síndico. Não suportava os constantes aumentos do condomínio. No dia da eleição, o mandatário encomendou canapés e um dj para os adultos — palhaços e docinhos para as crianças. Depois da terceira dose de Jack Daniels, o amigo fazia campanha para o adversário.
Outro amigo, fã do Roberto Carlos, comprou o ingresso para assistir ao show em um cruzeiro pela costa brasileira. Pacote pago, uma semana antes da viagem a companhia anunciou o cancelamento e o ressarcimento em vaucher ou ações da empresa. Quinze dias depois, entrou em falência judicial, as ações despencaram e os vauchers que seriam emitidos em dois dias, não foram mais. Meu amigo, pão-duro como ele só, viu-se transtornado: em seus mais de cinquenta anos, nunca se permitiu um exagero, um mimo, e agora não tinha a grana nem o deleite. Para compensar o prejuízo, em parte, vendeu todos os LP’s, CD’s e VHS’s do ídolo em um topa-tudo. Não era muito, mas aquilo o deixou melhor.
Assim é o dinheiro. Não escolhe as mãos onde cairá. Sábio ou idiota, perdulário ou mesquinho, egoísta ou filantropo, não discrimina ninguém.
Certa vez, em uma sinagoga, um ricaço trocou parte dos seus lucros por dúzias de moedas e, ao depositá-las no gazofilácio, ouviu o tilintar grandiloquente do metal no fundo de madeira. Todos sabiam, depois do barulho sistêmico: ele ofertou muita, muita grana. Contudo, era insignificante diante da sua fortuna. Enquanto isso, uma pobre viúva, tinha apenas duas moedas. Porém, era tudo o que possuía. E lançou-as no mesmo lugar.
Quem deu mais? — você pode se perguntar, se for bastante cínico. A questão não é quantidade ou valor, mas a relação de cada um com o dinheiro.
No Brasil, nenhum vínculo é maior do que a máxima: o que é seu é seu, enquanto não for meu, e, em breve, o que é seu será meu. Pode crer!
Quem viver, verá!
Ops, já vive.
Jorge F. Isah