Viver no Brasil não é para amadores. Viver em São Paulo é difícil até para profissionais. Hoje, eu e o meu filho sofremos, cada um à sua maneira, um tipo de golpe.
No meu caso, comprei um iphone usado no Mercado Livre e, quando chegou, havia algo de muito estranho. Balancei a caixa que estava leve como pluma e senti o chocalhar de um carregador, cabo ou outra quinquilharia de dez reais pelo preço de quatro mil.
Perguntei ao entregador se podia recusar, pois estava claro que não havia um celular. Ele prontamente disse que sim, e fez a ocorrência. Após lavrar o boletim, me desejou boa sorte.
Espero que o meu dinheiro seja estornado e o vagabundo preso. Mas se no 8 de Janeiro usar batom foi golpe, o que posso esperar de uma caixinha de surpresas? Mas quem acredita em justiça neste mundo cão é otário, e brasileiro é duas vezes mais otário.
Enquanto os malfeitores…
O mais engraçado é que os criminosos não se dão ao trabalho de sequer colocar um tijolo, pedra ou uma caixinha cheia de areia. Acreditam que brasileiro é paspalho e vai cair em qualquer golpe, mesmo o menos inteligente, para não dizer outra coisa e ser processado por algum ativista nefário.
Agora, vamos à saga do meu filho.
Ele saiu do trabalho, pegou a esposa e, em plena Av. Bandeirantes, às 13 horas, com o sol rachando e mais de 32 graus na sombra, parado no semáforo, ouviu o bater de metal no vidro. Quando olhou, um revólver o estava encarando. Ele pensou que havia fechado um motoqueiro indevidamente e o mesmo estaria disposto a defender a sua honra. Mas não, o assalto foi anunciado. A esposa, ao perceber a situação, abriu a porta e correu avenida afora.
Nisso, o bandido insistia:
— Me dá a aliança.
Sem entender, e tendo o outro comparsa em outra moto do lado direito do carro, pegou o celular e entregou ao meliante.
— Não, a aliança.
Ainda sem entender, já que o bandido usava uma balaclava, capacete e parecia ter a língua presa, ele tirou as chaves do carro e quis entregá-las. O facínora irritou-se, abriu a porta, e apontou com a “máquina” para o dedo.
O meu filho tirou a aliança e, junto com o celular, ofereceu-a ao gentil injustiçado pela sociedade. O homem simplesmente desprezou o celular, pegou a aliança, fez sinal para o comparsa, e se escafederam no meio do engarrafamento.
Do lado de fora, transeuntes, motoristas, passageiros e um ciclista olharam abismados a situação.
Como se isso fosse algo excepcional.
Em pouco mais de seis meses aqui, já vi dois furtos de carros em engarrafamentos — os veículos com os vidros quebrados por “metralhas” — um arrastão debaixo de um viaduto na Av. do Estado, e o relato de moradores que parecem disputar o prêmio do Guinness de “ladroado do ano”.
Tudo para tomar aquela cervejinha.
E olha que sou quase um ermitão. Só saio de casa para ir à igreja e fazer o check-up anual.
De quebra o susto, para nós, iniciados nas agruras da grande metrópole. É a calourada, com direito aos bullyings que nenhuma criança em idade escolar sequer imagina.
Vai uma Brahminha, presidente?
Jorge F. Isah