Um corrupto não se tornou assim da noite para o dia. Era aquele bebê que roubava a mamadeira do coleguinha do berço ao lado, que se apossava dos brinquedos das outras crianças, que fazia muita pirraça para ganhar o que queria – e era atendido. Era aquele que furava a fila da cantina na escola, que copiava os trabalhos dos colegas, que se apoiava em crianças mais fortes, em troca de favores, para ameaçar as mais fracas, e que inventava rifas inexistentes para ficar com todo o dinheiro apurado. Essa criança merecia ter tomado uma bela lição naquela fase da vida, para não se tornar um adulto inescrupuloso. Não posso falar em uma bela “surra”, pois arrisco ser processado por danos morais coletivos. E o autor do processo, assim como o acusador e o julgador, terão sido algumas dessas crianças.
Não me tornei um pessimista, mas um ultra-realista: antecipo os acontecimentos com base na observação histórica de um mundo que dá voltas e vê as coisas se repetirem. Atentem para essa questão da corrupção: já aconteceu em outros países, em diversos momentos da história. Em Chicago dos anos 40/50 quase toda família tinha alguém que trabalhava para a Máfia. A polícia, a justiça e a procuradoria estavam cooptados. Mas tinha um doido, chamado Eliot Ness, que se insurgiu contra o sistema e conseguiu prender o chefão, Al Capone, mas caiu numa arapuca e acabou na miséria e no esquecimento.
Na Roma antiga, a situação era insuportável e a injustiça, praticamente absoluta. Viram o que fizeram com Jesus: ninguém poderia acreditar que fariam isso com Ele. Mas aconteceu. E aconteceria de novo, caso Ele pisasse uma vez mais nesta terra. Não pisará. Ele ficará do alto, fazendo o seu julgamento, enquanto os malfeitores correrão desnorteados, como baratas quando acendem a luz.
Michel Salomão