Roleta-Russa

Um caso inusitado aconteceu, há uns dias, em Inacionópolis, no interior do Ceará. Cidadezinha de pouco mais de 3.000 habitantes, segundo os dados do IBGE. Na realidade, não passava de 229. Os demais, provavelmente, ainda constavam como esperança estatística.

Apenas duas ruas asfaltadas ligavam os pontos extremos do município, fundado em 1988, a primeira cidade planejada do estado. Projetada para 12.968 pessoas, encontrava-se em franca decadência, pois a migração para a capital e outros grandes centros era a única esperança do agreste. Ali, salvo raríssimas exceções, não havia futuro para ninguém, especialmente para os jovens. Seria uma cidade-fantasma tão logo o último dos velhos viesse a óbito, caso a morte ainda encontrasse motivos para passar por lá.

Tentaram-se várias formas de impulsionar o turismo, o comércio e a indústria, com maciço investimento federal, mas, ao cabo de quase duas décadas, somente as famigeradas ruas, já citadas, ganharam asfalto. Outras vinte e cinco permaneciam de terra batida, ou nem tanto; eram descampados onde a poeira dominava. Não se implantou um mercado distrital, uma fábrica, uma plantação ou outra fonte capaz de expandir o lugarejo. Nem mesmo a famigerada água, a ser obtida pela perfuração de diversos poços artesianos, foi alcançada. À boca miúda, dizia-se tratar-se de outro ardil para desviar recursos públicos e enriquecer uns poucos. Pelo menos alguma coisa prosperava.

Entretanto, quando menos se esperava, surgiu algo a deixar todos otimistas. Não foi a aparição do Chapolin Colorado, uma grande tempestade a inundar os açudes ressequidos, a descoberta de jazidas de nióbio ou petróleo… Não, nada disso. No sorteio da loteria, o primeiro prêmio saiu para um bilhete da cidade. Logo se divulgou que o ganhador, provavelmente nativo, se encarregaria de investir a fortuna na região: criar empregos, furar os poços, asfaltar as ruas e dinamizar a economia mambembe de Inacionópolis. Os botecos se encheram, foguetes foram soltos, buzinas de bicicletas, urros de alegria e latidos ensandecidos dos cães invadiram a cidade, tomada de eufóricas perspectivas. O filho amado traria finalmente a glória que ela nunca tivera e o sucesso prometido e jamais alcançado. Não se sabia quem era o benfeitor, mas sua fortuna já tinha destinação, orçamento e, provavelmente, comissão de acompanhamento.

Entretanto, ninguém sabia quem era o sortudo e felizardo. Por mais que as pessoas abandonassem seus afazeres à caça de alguma evidência ou indício, ninguém descobriu sua identidade. Especulou-se, inferiu-se, idealizou-se esse ou aquele, os mais cotados nas pesquisas de opinião, mas o segredo conservou-se inabalável. Nunca uma cidade tão pequena produziu tantos investigadores sem concurso público.

Dias depois, na capital, durante a entrega do cheque simbólico, o ganhador, para surpresa geral, apareceu fantasiado de Mumm-Ra, o vilão do desenho animado Thundercats, frustrando todas as expectativas dos moradores de Inacionópolis, ávidos diante das TVs e dos rádios, na esperança de ver e ouvir, finalmente, o sigilo ser quebrado.

— Qual a razão da fantasia? — perguntou o mestre de cerimônias.

— Para os meus parentes não me acharem! — pronunciou-se, sem constrangimento, perante os espectadores atônitos.

Havia motivos para se resguardar. O país era pródigo em roubos, assaltos, sequestros e golpes dos mais variados; mas proteger-se dos familiares?… Pareceu exagero aos olhos alheios, especialmente porque, em Inacionópolis, qualquer um poderia pertencer ao círculo familiar do pé-quente. Bastava subir três gerações para que praticamente todos se encontrassem no mesmo almoço de domingo.

A indignação foi pública e ostensiva. Não havia outro assunto: quem era ele? E por que o anonimato? Onde estavam a gratidão e a retribuição à família, já que todos em Inacionópolis pertenciam a uma grande e unida família?

Os dias se passaram. As semanas se passaram. Sem mudanças. Sem investimentos. Sem veredito. E a lista de suspeitos não parava de crescer. Qualquer iniciativa, ação, reação ou mudança, mesmo as mais espontâneas e estúpidas, que pudesse indicar a identidade do milionário era vista com desconfiança. O infeliz era primeiro sabatinado; caso resistisse, xingado; às vezes, capturado e surrado. Alguns chegaram a morrer em decorrência dos ataques, sem acusação formal ou indício. O simples fato de continuar vivo, em certos casos, já despertava suspeitas.

Ninguém estava imune às investidas raivosas nas ruas ou no interior das casas. Até quem comprava pão sem reclamar do preço passava a ser observado.

Alguém, contudo, elaborou um plano infalível; por que ninguém pensara nisso antes? Era muito simples: bastaria saber quem estivera ausente da cidade no momento da entrega do prêmio. Através da empresa de viação, seria facilmente possível identificar o mal-agradecido. Dito e feito.

Ao se depararem com o nome do ganhador, todos se assustaram: era justamente aquele que, nem mesmo diante da morte, depois de ser sovado violentamente, declinara a façanha. No momento final, até alguns membros da parentela, que já suspeitavam de suas últimas atitudes, surpreenderam-se quando ele pronunciou as palavras derradeiras:

— Perdeu, manés!

No testamento, deixou toda a fortuna para a ONG Flato, empenhada em substituir papéis higiênicos por lenços umedecidos.

Inacionópolis permaneceu sem água, sem asfalto e sem futuro. Mas, ao menos em matéria de higiene íntima, havia progresso.

Jorge F. Isah

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