Alguém disse que sou um clone do Elvis. Fingi que não entendi e larguei o cara para lá. Depois, outro falou que eu imitava o Michel Jackson. Achei um exagero, pois apesar de ser caucasiano, o Michel era muito mais branco do que eu. Então, uma namorada afirmou que eu parecia o Stallone, musculoso, sem expressão, e quase tão parvo quanto ele. Entendi quase tudo, menos a parte do parvo. Era um tipo de molho italiano ou peixe nordestino?
Minha mãe jurava que eu era a cara do Clark Gable, enquanto uma tia, irmã da minha mãe, dizia para ela: não, não é não! Ele se parece muito mais com o Sidney Poitier. Não conhecia também um ou outro, não acompanho as novidades e tenho uma memória nada confiável, então, depois de uma rápida pesquisa, não havia nada neles em mim; notei, contudo, uma homogenia com o Richard Gere.
Lembro-me, quando criança, de imitar os trejeitos e cacoetes do Jerry Lewis, o andar esquisito, caretas ridículas e cômicas, mais a assustar do que a divertir os colegas. Aprendi a dar lençóis, carretilhas e fazer gols de cobertura como o Reinaldo, lançamentos iguais aos do Platini, e passes e chutes milimetricamente perfeitos ao Del Pierro. Antes, imitei desavergonhadamente o personagem John Boy, do Richard Thomas, e quase me vi escrevendo como ele. Fui o garotão namorador de Bervely Hills, em Barrados no Baile, o marido fiel e dedicado de Mad About You, e o sujeito enigmático de Dexter. Peguei as manias de Adrian Monk e as sutilezas de Columbo, sem falar na rabugice do detetive Sipowicz. Nos momentos de folga, tinha o charme do Bob Simone e a destemida elegância do Clint Eastwood.
Não me lembro se já fui eu mesmo alguma vez. Minha esposa diz que sou um homem diferente a cada seis meses, meio camaleão, e reputa o sucesso do nosso casamento a estas múltiplas identidades, sem as quais a nossa união estaria rompida haveria tempos. Era bem possível alguém acusá-la de poligamia, e isso a fazia rir até perder o fôlego. Por hora, não sabe como me chamar, pois sempre que pergunta em quem vou votar, digo que sou isento, imparcial, e não estou nem de um lado nem do outro, mas, ato contínuo, acabo por fazer com o dedo indicador e o polegar um “L”. Porém, ao ver as lives do Capitão, fico de prontidão, bato continência, ponho a mão direita no peito e canto o Hino Nacional.
Ela garante, se as eleições fossem por múltipla escolha, eu marcaria todas as opções anteriores, sem medo.
Jorge F. Isah