Os passos da LEMBRANÇA

Não sei por que essa tristeza Paixão, o namoro termina, mas a vida continua; você precisa saber, na época em que namorei seu pai e o conheci. Em nosso tempo, namoro era coisa séria, eu e seu pai éramos vizinhos e, desde criança, estávamos prometidos um ao outro. Então, com 15 anos casamo-nos, ele com 18 anos, e o enlace era para toda a vida, mesmo com as dificuldades da roça; e se o homem não quisesse ficar casado, tinha que sumir da cidade. Sua tia, a irmã do seu pai, a tia Cotinha, certo dia, em que o esposo chegou em casa, encarou-a, voltou para fora, subiu no cavalo, se mandou e até hoje ninguém teve notícias dele.

Não contive o riso, na verdade, chorei de tanto rir.

Antigamente, quando a palavra de um homem e o fio do bigode tinham peso, tinham valor, o homem falava e pronto: ninguém questionava! E se saísse de um relacionamento porque quis sair, deixasse ir, pois ele manteria a sua palavra e não retrocederia, e os antigos diziam: “Deixa que vá! Foi Deus que não quis!”; e o homem não voltava atrás, era vergonhoso voltar, era um tipo de orgulho que não se vê hoje… Fique sabendo Paixão, ninguém conserta ninguém! Quando a pessoa não quer enfrentar a realidade e as consequências de um fracasso, arruma desculpas para encobrir suas falhas e pecados. Já cansei de ouvir: “Vou ficar com ele!… Vou ficar com ela!”… mas isso não existe de verdade, pois acham que com o tempo se muda. Muda nada, Paixão!

Acontece que em um relacionamento as coisas vão se encaixando, ambos se tornam flexíveis, ou cede-se aqui e acolá para não haver conflitos desnecessários. Na minha época, as mulheres tinham os seus deveres de mulher: a casa, os filhos, o marido, mas com o passar do tempo as coisas foram mudando, mas mesmo assim há diferenças, pois as mulheres sabiam dizer não e também educavam os filhos, e sabiam tomar posição de mulher, renunciavam muitas coisas para criar os filhos, cuidar da família, manter a ordem no lar. Muitas decisões eram tomadas pelo homem, e pronto! No geral, eram resolvidas por ele. As mulheres não intervinham em certos assuntos, as vezes eram proibidas de dar pitacos; havia pouca liberdade de escolha para elas. Havia uma certa divisão: o mundo dos homens e o mundo das mulheres…

Risos… novamente, não me dominei.

… Embora ainda tenhamos uma vida simples, temos TV, fogão a gás que só é usado quando tem visita, pois tudo é feito no fogão à lenha. Realmente, a modernidade está chegando a galope. Antes andava-se a pé ou no lombo de uma mula até a torradeira de farinha de meus pais. Nunca tive a oportunidade de ir a uma escola na minha vida. Não sei assinar o meu nome.

Comovi-me, e não resisti a interrompê-la:

Agora, a senhora quer me fazer chorar. Até me esqueci do namorado… Estou triste de novo, mas pela vida triste que teve. Eu, ao menos, fui à escola.

Paixão, fique sabendo que foi na roça, plantando e fazendo comida para os peões da fazenda, que eram uns 50 homens, que passei a vida. Mesmo assim, tenho saudades daqueles tempos… Hoje, com toda esta modernidade, trens e bondinho que eu pouco uso, ainda tenho boas lembranças da roça, dos animais do campo vasto, dos rios, das árvores e seus frutos…

Nisto, seus olhos encheram-se de água. Eu era seu divã. Quando ela queria desabafar, me tirava da minha tristeza e me colocava na tristeza dela. Hoje, fico pensando em seus conselhos. Eram sábios, e para isso não se precisa de diploma, para escrever bem. O diploma é observar a vida, os processos pelos quais cada um passa para sobreviver. No final, tudo era resolvido ou ficava no passado, retido nas lembranças.

E o passado era tão bem guardado que os segredos, finalmente, eram levados para o túmulo.

Rosemare Rocha

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