Sofri muito bullying na escola. Na época nem existia esse nome, mas era comum a garotada escolher aleatoriamente alguns meninos para infernizarem as suas vidas. E eu fui um dos escolhidos. Era muito franzino, magrelinho mesmo, e não me deixavam em paz. Morava em um bairro muito pobre, havia bares em todas as esquinas, o que obrigava os homens a começarem cedo com as suas cachaças e, por conta desse compromisso social, muitos deles não tinham tempo para educar os filhos e apenas os espancavam por qualquer motivo, ou até sem motivo. Os filhos aproveitavam esse ódio que sentiam para descontar em algum infeliz incapaz de se defender.
Mas aí veio o meu estirão: de menos de 1m50, passei para pouco mais de 1m80 entre os 13 e 14 anos. Normalmente, os meninos da época, ao atingirem a puberdade, passavam de vítimas a agressores, e escolhiam os seus alvos entre os mais fracotes, mas eu, ao contrário, queria vingança daqueles que abusaram de mim e quebrei todos eles. Menos um, o que mais me incomodava, não precisei fazer nada, porque ele morreu, vítima das drogas.
Entrei num curso de capoeira e brigava todos os dias, voltando para casa com a camisa com manchas de sangue que não era meu. Muitas vezes tinha que colocar de molho na água sanitária para a minha mãe não ver. Não me tornei um psicopata e hoje encaro esse sofrimento como um ritual de passagem.
Atualmente, a rapaziada pratica bullying virtualmente, pois mal saem de casa. Utilizam a Inteligência Artificial, fazem montagens com fotos e vídeos que se espalham pela internet. As vítimas choram, entram com processos, alguns se matam. Os tempos mudaram.