Na soleira da porta: limpe os pés!

Como aceitar as mudanças óbvias e quase determinadas a acontecerem na vida? Muitos de nós custam a dar conta de alguma mudança e que determina as coisas que não eram percebidas e agora, para rir ou lamentar, fazem parte da nossa realidade.

Com a modernidade e a tecnologia de comunicação — as redes sociais — o comércio que depende da propaganda e da comunicação com os previsíveis consumidores — após a apropriação indevida ou não dos dados pessoais — passa a suprir as suas novas demandas.

Das vitaminas aos cursos gratuitos, às coisas mais íntimas e invasivas como doenças de velhos: problemas nos rins, pressão, de ereção, e outras formas menos agressivas de denúncia gerontológica, uma coisa é certa: seus dias estão contados.

Sabe aquele excesso de gases — flatulência ou peidos, tanto faz — pode ser câncer no intestino. Testa ressecada, problemas nos rins. Dobra na orelha, infarto iminente. E por aí afora. Os antigos diziam — e estavam certos — lábios excessivamente roxos, problemas no coração.

Pior são as recomendações para melhorar o desempenho sexual: faça isso e deixe o seu (sua) parceiro (a) louco (a). Isso explica o surpreendente número de casais mortos repentinamente após uma farra naquela cama de motel. Às vezes, morre um dos parceiros. Às vezes, morrem dois. E podem ser até três.

Há ainda os paliativos mais antigos: cirurgias plásticas, adesivos para esticar a pele do queixo, esportes e as maravilhas das academias, tudo para ouvir aquele amigo ou amiga dizer: “Mas como você está bem!”, e achar que a sua aparência melhorou, quando estavam de olho no seu Rolex ou o pingente de diamante. E ninguém se lembra — ou finge não lembrar — dos mortos em campos e quadras e nos “crossover” dos centros fitness.

Nos vendem a ilusão de juventude eterna. É verdade que a velhice pode ser antecipada, por péssimos hábitos, vícios, vida desregrada; porém, ainda que possamos nos livrar de doenças desnecessárias e até vencer algumas, o diagnóstico vai piorando com o passar dos anos.

Somos bombardeados por todo tipo de informação, algumas verdadeiras, outras nem tanto, muitas tolas e propositalmente falsas. É inevitável e faz parte da maturidade o discernimento. A vida não é um desafio de sobrevivência para “os mais fortes”, mas certamente para os mais sábios.

A ideia de que, com o acúmulo de anos nos tornamos mais espertos e sabemos de coisas que não sabíamos, não garante que essas “novas coisas” levarão a um padrão de vida melhor. Às vezes, resta-nos rir dos outros e… de nós mesmos.

Ainda somos os mesmos que nossos pais, como já declarava o talento de Belchior, ou a máxima do Pregador: não há nada de novo debaixo do céu.

Aparentemente há uma conspiração inconsciente, uma tendência, de substituir a “força das espadas do passado”, a levar as pessoas a se comportarem e a reagir exatamente como sistema espera de todos nós — aí, você pode incluir governos e grandes corporações no acúmulo incansável de poder, riqueza e controle.

O que fazer?

Rir? Chorar? Ou ambos?

Pois o futuro já chegou, e sentou na soleira da porta.

Helvécio S. Pereira

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