O almoço foi monótono e chato. O bife acebolado estava com mais gosto de cebola do que de carne, o que me levava a pensar se realmente era carne. O preço do cardápio confirmou que era, e devia ser de um gado bem especial, tratado a pão de ló e braquiária de primeira.
Estava palitando os dentes quando ouvi alguém me chamar. Olhei à esquerda e reconheci Ivan:
— Como vai? Tudo bem?
Eu disse.
— Nada… mas me conta? Como está o pessoal?
— Alguém específico?
— Ah, sei lá! Todo mundo…
— Estão bem, acho.
— Vamos tomar um café?
Tentei despistar e dizer que tinha de voltar ao trabalho. Mas ele insistiu.
— É só um minutinho…
Espero que sim, pensei.
— E o curso?
— Bem.
— Tá estagiando?
— Sim.
— Onde?
— Na Building Corporation.
— Uau! É gringa?
— De Bannach.
Deu um tapa nas minhas costas.
— Quem diria!
O que ele queria dizer com isso?
— Eu sou assessor de diretrizes e metas institucionais e públicas da prefeitura.
Fiquei calado.
— Sabe o que é?
— Não.
— Cuido de todo o processo de criação e desenvolvimento das redes de apoio para as minorias, Ongs e fóruns voltados à integração, especialização, treinamento de grupos segregados. Agora mesmo, acabei de sair de uma reunião com o diretor executivo da Fundação do Presente para os Trabalhadores Silenciosos.
— Ah?! O que é isso?
Pigarreou, ajeitou a gravata, e começou.
— São cidadãos marginalizados pelo sistema e que se encontram em estado de penúria… vulneráveis e carentes de apoio e inclusão social… Cidadãos em condição de vulnerabilidade produtiva, excluídos das dinâmicas formais de pertencimento econômico e obstruídos pelos mecanismos desumanizadores de exclusão setorial.
Cocei a cabeça.
— Quando você diz “silenciosos”, quer dizer preguiçosos ou vagabundos?
Ivan arregalou os olhos.
— Claro que não! São excluídos, vítimas de uma sociedade preconceituosa e capacitista.
— Diga-me: como os tais pretendem ser incluídos?
Ainda com a fisionomia circunspecta, revelou:
— Cabe à sociedade reparar os seus erros e dar dignidade às suas vítimas.
— E?
Encarei-o, pensando no ronco deles a quebrar o silêncio.
— Ora, o nosso projeto é destinar um percentual dos impostos à F.D.P., e assim realizarmos a justiça transacional.
Pensei num intercurso plural, e a imagem me fez rir.
— Do que está rindo?
— De nada.
— Como nada? Acha que pode zombar dos segregados?
Aquilo me irritou.
— Ah, só mesmo um Tico pra achar que é um Teco!
Dei as costas e saí.
Pude ouvi-lo ainda dizer, em alto e bom tom.
— Você não perde por esperar! … A sua hora vai chegar!
O gosto do bife se agarrou no alto da boca, e algo me dizia que ele não mugia, mas cacarejava.
Jorge F. Isah