Vida de Vidro

Hoje acordei bem cedo para fazer minhas tarefas de casa. Tudo para mim começa com o café, o cuidado com as roupas, entre outras coisas. Como hoje tudo está mais moderno — máquinas fazem boa parte das tarefas por nós —, isso colabora para que as atividades antes mais pesadas fiquem mais leves. Nisso, nós, mulheres, que já fazíamos várias coisas ao mesmo tempo, conseguimos realizar ainda mais entre uma pausa e outra.

Digo isso lembrando que, quando eu era jovem, nada era como agora. Gastávamos, quase sempre, um dia inteiro para dar conta de uma tarefa só: arrumar a casa, lavar as roupas, ariar todas as vasilhas, limpar os galinheiros, etc. Claro que era mais divertido, pois era feito com várias pessoas na mesma lida. Contavam-se casos e “causos”, ria-se de alguma situação ou de outras pessoas, fofocava-se e xingava-se quando algo nos desapontava.

Se as coisas hoje são mais ágeis e leves, também são feitas de forma mais mecânica: ligam-se as tomadas, apertam-se certos botões, escolhem-se os modos, e a máquina faz o resto por si mesma. Daí, ligamos outra máquina, o fogão, o micro-ondas, e basta supervisionarmos se algo não está pegando fogo ou parado.

Lembro-me, mais uma vez, das sábias intervenções de minha já finada mãe, que dizia: a vida é para ser vivida e, de preferência, de forma mais leve que a realidade dita. Ela falava com muita simplicidade. Dizia também, com clara sabedoria, que a vida é dura, mas se quebra igual a um vidro.

Então, eu perguntava na hora, sem ficar matutando para o dia seguinte: — Como assim, mamãe? Se a vida é dura, como é que se quebra tão fácil?

Ao que ela, pacientemente, respondia: — A vida é dura porque a maioria das coisas não é fácil; são difíceis, cansativas, demoradas…

Fazia uma pausa antes de prosseguir: — E é frágil, porque, se você não tiver cuidado, qualquer coisa a quebra, a vida se vai… deixa de existir. Mas não parava por aí: — Quando digo vida, falo de nós, eu, você e todas as pessoas do mundo.

Permanecia calada, esperando ela concluir o que havia iniciado: — Pensa, Paixão — meu apelido na família —, hoje você levantou, fez suas tarefas, mas amanhã você sabe se estará aqui? Então, devemos fazer tudo com dedicação, amor, paciência e tranquilidade, mesmo que seja varrer um terreiro ou cuidar de um galinheiro, pois tudo isso pode deixar de existir quando a sua vida se quebrar como um vidro. E, às vezes, esse quebrar tem como emendar ou colar… tomar uns remédios e, se não der resultado, é enfiar a viola no saco, porque chegou a hora. Às vezes, nem dá tempo de se despedir de quem amamos… A vida é um vidro, fino, frágil, Paixão. Cuide desse vidro, leve-o com cuidado. Deus te deu esse vidro e deu a todas as pessoas. Cada um tem que ser um exemplo de cuidado, de vontade de viver, que inspire outras pessoas, cada uma a cuidar melhor do seu vidro, duro… mas frágil.

Rosemare Gomes

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