CONFLITOS

As relações humanas estão complicadas às vésperas do fim do mundo. Imaginando não terem nada a perder, já que todos vão morrer mesmo, as pessoas estão perdendo as estribeiras por qualquer motivo, e os mais pacíficos acabam se envolvendo nessas confusões. Relatos de brigas de trânsito que terminam em fatalidades, desentendimentos em supermercados, brigas de vizinhos, de colegas de trabalho, de familiares em festas infantis, e até entre membros de igrejas.

Sempre converso com caixas de supermercados e eles dizem que, quase todos os dias, são ofendidos por clientes que, na maior parte das vezes, reclamam dos preços dos produtos e pensam que são eles os responsáveis por não estarem conseguindo comprar a picanha e a cervejinha prometidas por um político falastrão.

Presenciei o caso de dois funcionários que viraram inimigos mortais (até então eram amigos, saíam para beber após o trabalho, etc.) porque um debochou do nome do cachorro do outro. Esse outro xingou a mãe do primeiro e, assim, quase se morderam, literalmente. Em uma forçada tentativa de conciliação promovida pelo chefe, a melhor solução encontrada foi mudar um deles de setor, mas continuaram se odiando através das paredes.

Deu na internet que, em uma recente festa em um buffet infantil de Brasília, uma criança soprou as velas do bolo do primo, que era o aniversariante, e os pais acabaram se enfrentando a socos e pontapés, indo parar umas cinquenta pessoas na delegacia, entre envolvidos, testemunhas e curiosos.

Na igreja do bairro, uma frequentadora opinou sobre a roupa da outra e tiveram que separar, pois já se agarravam pelos cabelos e, por pouco, não mostraram as respectivas calcinhas do tipo “coador”, pois estavam de vestidos e os obreiros as ajudaram a se recompor.

Recentemente, fui pedir uma ata para o síndico do meu prédio, pois acabara de me mudar e precisava entender sobre a distribuição de vagas de garagens, e ele, sem me conhecer e sem saber como eu seria capaz de reagir, quase partiu para as vias de fato, gritando que “eu mal havia me mudado e já estava arranjando confusão”. Fiquei estarrecido e não reagi, mas formalizei o pedido para utilizar em eventual ação judicial. O problema é que quase tudo vai parar no tribunais, e já sabemos que as coisas, neste Brasil, podem não sair tão justas quanto se espera.

Michel Salomão

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