O enfado, a esquina, a amizade – E o sentido da vida

Aquele dia melancólico, sorumbático, réstia de forças esvaídas. Uma sexta-feira, quem sabe? Um dia enfadante de lidar com enfadantes. De lidar consigo, pois contrário ao que errou Sartre, que dizia que o inferno são os outros, o inferno é o espelho. Ou o primeiro deles.

Aquele momento quando a vida fica esvaziada de sentido, esse sopro pueril. Contando as horas para o fim do expediente, para ir para casa – mas que há em casa? Os mesmos afazeres, projetos e hobbies.

Você sai do trabalho num qualquer centro urbano – Niterói, talvez –, come umas esfihas, pois nem almoço tenciona preparar. Desce do ônibus em sua periferia gonçalense – ou outra à sua escolha –, avança cabisbaixo pelas ruas, torre de melancolia que sinistramente respira e anda. E então, numa curva de esquina, entre uma e outra barricada, encontra um dos velhos amigos. De repente, depois de tanto tempo – nas amizades verdadeiras, você sabe, o tempo é ainda mais relativo que na teoria de Einstein –, num horário tão improvável. A conversa – essa corda invisível de fundar aldeias – se inicia: o crime, a política, a pouca-vergonha, a graça e misericórdia de Deus, fulano que enfartou, coitado.

E eis que um outro amigo, também de infância e sempre, vem pela mesma rua. Três destinos que há tanto se contemplam, e que em muito já marcharam juntos, em asfaltos e lamaçais, trampos e tretas. E a conversa agora é uma explosão – gargalhadas e mímicas, eventos sujos e hilariantes que só os homens sabem – vergonha nossa! – relatar, anedotas e saudades preenchem duas horas de três homens, em pé, numa esquina.

E você vai embora, mas agora a vida, essa vacuidade, está plena de sentido, transbordante de razões para ser.

Se o inferno é o espelho, é sempre o próximo quem poderá quebrá-lo.

Sammis Reachers

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