Dizem que lá nas bandas do vale do Rio das Velhas morava um sujeito chamado Compadre Tião, famoso na região não por maldade, mas por uma lábia tão refinada que seria capaz de vender um copo d’água para quem estivesse se afogando.
Certa feita, Tião se viu apertado de dinheiro e decidiu desapegar de um cavalo velhaco que tinha no pasto, um bicho de pelagem vistosa, lustrosa, mas que trazia um pequeno detalhe de nascença: era completamente cego dos dois olhos. Cego de pai e mãe, como se diz na roça.
Não demorou muito e apareceu na porteira o Compadre Zé, homem crédulo, de poucas luzes, mas com uns trocados no bolso querendo comprar uma montaria para ir às missas de domingo.
Tião amarrou o cavalo num mourão, deu uma escovada no bicho para abrilhantar o pelo e esperou o comprador com aquele sorriso sereno de quem está prestando um favor à humanidade.
— O cavalo é esse aí, Zé — disse Tião, batendo no anca do animal. — Forte, manso, não come muito e tem uma estampa de dar inveja a coronel.
O Compadre Zé rodeou o bicho, olhou os dentes, apalpou as canelas e ficou encantado. Mas, cauteloso que só ele, pediu uma demonstração:
— Tião, o bicho parece bonitão mesmo. Mas solta ele aí no terreiro pra eu ver a marcha do animal.
Tião, sem piscar, desamarrou a rédea, deu uma estalada de lábio e um tapa na garupa do cavalo. O coitado do bicho, sem enxergar um palmo à frente do focinho, saiu num trote desabalado retinho em direção ao pomar. Não deu outra: pimba! O cavalo meteu a testa em cheio no tronco de uma mangueira frondosa, chacoalhou as orelhas, ficou meio zonzo e caiu sentado no chão.
Compadre Zé deu um pulo para trás, de mãos na cabeça:
— Mas Virgem Santíssima, Tião! Esse cavalo é cego! O bicho foi direto na árvore!
Tião nem se abalou. Tirou o chapéu, coçou a testa com uma calma filosófica e respondeu:
— Cego nada, Compadre Zé! O que acontece é que esse cavalo é muito pensador.
— Pensador, Tião?! — espantou-se o homem.
— Pois é! Ele é um bicho profundo, de muita reflexão. Quando ele fecha os olhos e entra em cismar com a vida, ele não quer saber de nada ao redor. Ele viu a mangueira, sim senhor, mas estava tão concentrado nos pensamentos dele que resolveu testar se a árvore estava bem firme no chão!
Zé coçou o queixo, meio desconfiado, mas a conversa do compadre era tão macia que ele resolveu dar outra chance:
— Bom… se é assim, toca ele de novo, mas praquele lado do pasto limpo.
Tião levantou o cavalo, alinhou o bicho para o lado onde não tinha árvore e deu outro grito. O cavalo, assustado, disparou de novo. Só que, em vez de seguir em frente, o coitado virou um pouco à esquerda e chocou-se de peito contra o muro de pedra da tulha, indo ao chão mais uma vez, soltando um relincho dolorido.
Compadre Zé, revoltado, gritou da porteira:
— Ah, não, Tião! Agora você não me engana! O cavalo é cego de tudo! Bateu no muro de pedra que até a poeira subiu!
Tião suspirou, olhou para o céu como quem lamenta a falta de sensibilidade do mundo e disse com a voz embargada de indignação:
— Cego, Zé? Você chama a coragem do animal de cegueira? Ele viu o muro perfeitamente! Só que ele é um cavalo de tanto brio, mas de tanto brio, que achou que passava por cima do muro no impulso!
Compadre Zé encarou o cavalo, que continuava balançando a cabeça, tonto, no meio da poeira. Olhou para o Tião, olhou para o muro, e soltou o veredito:
— Pois olha, Tião… para um cavalo que pensa tanto e tem tanto brio, eu acho que ele tá é precisando de um capacete!
Anônimo