Era perfeccionista e vivia nos mínimos detalhes. Tudo na sua vida foi milimetricamente planejado e rigorosamente executado. Nasceu no dia exato previsto pelo médico. Apegava-se à mesma chupeta e chorava pela mesma papinha quando bebê. Brincava com os mesmos brinquedos entre 9h e 12h30min, no mesmo quarto, no mesmo canto do quarto, sentado de frente para o canto. Ainda jovem, um vazio o inundava.
Ao crescer, ia para a escola com a mesma roupa, a mesma mochila e pelo mesmo caminho. Na faculdade estudava somente à noite, sentado na mesma carteira, tirando as mesmas notas (sempre altas). Já adulto e independente, acordava às 06h08min, tomava banho com a toalha azul e com sabonete de lavanda. Havia uma cor de toalha para cada dia da semana, assim como as cuecas, as camisas, calças e as meias. Colocava a gravata listrada, sendo esta a de segunda-feira. Os utensílios da cozinha eram pendurados por tamanho e também acomodados em ordem de função nas gavetas, cada um no seu lugar. Materiais do banheiro eram organizados por tamanho e alinhados perfeitamente nas prateleiras. Saía exatamente às 07h13min, dava duas voltas completas na chave da porta, descia a escada iniciando com o pé esquerdo. No trânsito fazia o exato e o mesmo trajeto desde que iniciou o trabalho. Nos semáforos, contava os segundos parados em ordem decrescente.
No trabalho, sentava na mesma mesa e cadeira, com bloco de anotação e calendário à direita, lápis e canetas à esquerda. Os clipes de papel, enfileirados na mesa, eram organizados por tamanho, do menor para o maior. Na sua frente uma fileira de lápis, equidistantes e do mesmo tamanho, adornavam a mesa. Sua vida era assim, milimetricamente planejada e executada.
Agora, no apartamento, é a noite do seu aniversário de 36 anos. Sentado na cama, aguarda o relógio chegar às exatas 22h37min, hora escolhida para o seu suicídio. Tudo na sua vida fora milimetricamente planejado e executado, inclusive a sua morte.
Acompanha com o olhar uma borboleta colorida suavemente pousando em sua mão. Admira e hesita.
O relógio já passa das 23h.
Pela primeira vez na vida tem dúvidas sobre sua vida e morte milimetricamente planejadas.
Aldair R. Santos