Lá pelos meus dezenove, vinte anos, li este livro por indicação de Charles Bukowski, cuja obra arrebatara-me compulsivamente, a quem admirava o estilo “despojado” de escrita. Investi esforço e saí à caça de “Fome”, de Knut Hamsun, autor inclusive laureado com o Nobel. Até então, para mim, noruegueses eram pródigos na produção de bacalhau e petróleo; não imaginava que tivessem uma literatura “parruda” e um Nobel, apesar da Academia se instalar concomitantemente em Estocolmo e Oslo, e já seria suficiente como sinal de alerta a mim. Pois bem, acabei por encontrar uma reedição publicada pela Civilização Brasileira, com tradução de Carlos Drummond de Andrade.
Exemplar em mãos, passei à leitura, e não me recordava de muitas coisas a não ser as andanças do personagem principal por Cristiânia (atual Oslo) em busca de trabalho, comida e abrigo, e de haver algumas semelhanças com Raskolnikov, de Crime e Castigo, de Dostoievski.
Passeando pela Amazon, me deparei com nova edição da Editora Itatiaia, e resolvi lê-lo novamente, texto com a mesma tradução de Drummond. Algumas coisas se confirmaram: para um livro publicado em 1890, “Fome” tem uma simplicidade narrativa e estrutural quase inéditas. Não me lembro, no momento, de outro título, à época, a assumir essa posição. Contudo, se a narrativa parece não ter grandes mudanças, as reflexões, anseios e comportamento do protagonista são avalanches desencadeando outras avalanches.
Durante a leitura, foi possível notar a influência de Hamsun em autores como Hemingway, Fitzgerald, Miller e outros tantos, inclusive o próprio Bukowski. A cada página uma estranheza indefinida vinha intermitente, inexplicável como alguém a girar em torno de si mesmo sem parar. Entretanto, engana-se quem não percebe as entranhas de “Fome”. O autor vive em constante dilema, seja no aspecto físico e a realidade de sua penúria e miséria, seja no insucesso da sua carreira de escritor, no amor, e algum auxílio da sociedade já tão preocupada e resguardada nas aparências. Se antes era um homem promissor, autor alvissareiro, bajulado por uns e outros, aos poucos se vê obrigado a penhorar livros, objetos pessoais, roupas e até mesmo os botões do seu casaco. Resta-lhe as roupas de mendigo, sujas, puídas, desbotadas. Seria uma analogia ao seu estado de espírito? À degradação da sua alma? Como Dorian Gray em seu retrato?
“Sentado no banco, e absorto nessas reflexões, sentia-me cada vez mais azedo com relação a Deus, por causa de suas insistentes provações. Se ele supunha chamar-me para junto de si e aperfeiçoar-me pelo martírio, acumulando mortificações em meu caminho, estava um tanto enganado, podia garantir-lhe. Levantei os olhos para o Altíssimo, quase chorando de orgulho desafiador, e disse-lhe essas coisas uma vez por todas, mentalmente.” (pg. 23)
Esta mania que o homem moderno tem de, invariavelmente eximir-se de qualquer culpa ou responsabilidade atribuindo-a a outrem, à sociedade ou a Deus, em última instância, é apenas o reflexo do Adão perdido no Eden após o seu pecado: culpa-se tudo e todos, menos a si mesmo, ao seu desejo ilícito e a sua imoralidade disfarçada mas não menos exposta e saliente, como a se ver em meio às sombras, a fugir para a escuridão pensando ir à luz.
Se existe algo a propor loucuras na mente é a fome. Se há o “start” da fraqueza, é ela. Não subsistem os princípios morais, éticos e humanitários. Como a avalanche, é capaz de arrastar quem estiver por perto, sem muito esforço. O personagem principal, cujo nome verdadeiro não sabemos, pois adota vários no decorrer da trama, em seu orgulho e jactância, desce a escala moral em direção ao fundo do abismo. Entrega-se à mentira, dissimulação, furto, cobiça e tudo o mais que o seu estado deplorável permite. Entretanto é incapaz de impedir a humilhação, o descrédito e a pilhéria. Vê-se, também, paranoico, enrolado e imerso na própria confusão criada. É a receita do desastre, agravado pelo desprezo à sociedade, à agitação urbana, aos valores impregnados na maioria das pessoas; ainda que, uma e outra, quando se percebe alvo da gentileza e compaixão alheias, reconhece-as, mas trata quase imediatamente de despojar-se delas e suas ações. Não pouco, me vi a perguntar: “Por quê?… Qual o sentido disso? De não se precaver e ser racional?”… Parece-me não haver apenas uma indigência corpórea mas da alma; ao perder os sonhos, se encontra igualmente desnorteado, sem identidade, sujeito às atitudes mais absurdas e levianas. Pode-se dizer estar às portas da loucura, produzida pela empáfia e cinismo. Logo, apesar do estado de penúria, os momentos de arroubos ufanos predem-no a um mundo intolerável e indigno.
“Não obstante, aquele cobertor verde me importunava. Por outro lado, não condizia com a minha dignidade carregar semelhante pacote debaixo do braço, à vista de toda gente. Que iriam pensar de mim? Caminhando, procurava lembrar-me de um lugar onde pudesse guardá-lo até nova ordem.” (pg.34)
A miséria transtorna, e o leva a laivos de hipocrisia. Ao considerar-se melhor que os outros, incapaz de agir pelos meios deles, de infringir as leis naturais, de ter consciência pura e inocente, numa ilusão e delírio espirituais, se mete aos mais banais e caricatos pecados. Vive em um paradoxo, onde é incapaz de manter a honra e inocência, e acaba por meter-se em um emaranhado desconexo de indulgências e lamentos. Sim, ele é um vitimista, onde todos os problemas, via de regra, concentram-se no exterior, à parte dele. Raramente se dá conta do próprio fracasso e de como contribuiu decididamente para ele.
“A consciência de minha honestidade subiu-me à cabeça, inundando-me com o sentimento grandioso de que eu era um caráter, um farol de extrema claridade em meio ao oceano lamacento dos homens, entre destroços flutuantes.”(pg 43)
Para ele, a fome é a causa de todos os seus problemas, a razão dos dilemas, inclinações e máculas, e não o contrário; dela ser tão somente a consequência das suas escolhas, hábitos e frustrações, guiados pelo orgulho as vezes maior, outras, menor, mas sempre efetivo em algum aspecto em suas decisões. Paulo escreveu: “ Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia.”(1 Co 10:12).
Ele é um homem que vive na escuridão, com entremeios dispersos de luz ou penumbras, ao ponto em que, de consequência a fome se torna também a causa da degradação, não somente física, mas moral e espiritual, a afundá-lo mais e mais na desilusão, em devaneios e reações descabidas. Falta-lhe o prumo, e o estado famélico eleva-lhe o desequilíbrio, em constante amálgama de sonho, delírio e realidade modeladas pelo caos íntimo, mas a julgar proveniente do exterior. Se a fome aparenta simplicidade, as emoções, razão e sentimentos são atormentadoramente complexos, as vezes controláveis, em sua maioria exaltados e indômitos.
“Expliquei o caso, contando a mesma história da véspera; menti de olhos abertos, sem pestanejar, menti com sinceridade: ‘infelizmente, farreei um pouco além da conta num café, e perdi a chave…’…ninguém me ofereceu um bônus, e não tive coragem de reclamá-lo. Instantaneamente, isso despertaria desconfiança. Começariam a remexer em minhas coisas, descobririam quem eu era realmente. E me deteriam por falsa alegação. De cabeça erguida, com a atitude de um milionário, de mãos presas ao forro do paletó, retirei-me do Depósito” (pg. 67).
Neste círculo vicioso, o protagonista não parece ter saída para a sua alma atribulada, cheia de angústia, humilhada, mas segura em uma altiva inutilidade, incapaz de satisfazer-lhe no desejo mais simples e trivial, a comida. Tudo o afasta dela, e ele é o único promotor a garantir e manter o distanciamento. A despeito da ajuda aqui e acolá, em seus ímpetos atarantados e evasivos, ambíguos e artificiais; pois a fome não lhe dera outra personalidade, apenas manifestou-a, retirou-a das entranhas e expô-la, e produziu um tipo de sinceridade traiçoeira e impostora.
“Deixava-me dominar pelo orgulho, saltava à primeira provocação, do alto da minha soberba, atirando dez coroas ao vento, e ia-me embora… Censurei-me severamente por haver deixado o quarto e ter-me posto de novo em apuros.
Afinal, para o diabo com tudo isso! Não pedira aquela nota de dez coroas, mal a tivera na mão, e, logo a passara adiante, em pagamento a alguém que nada significava para mim, e que nunca mais veria.”(pg. 166)
Se o grão não morre, fica só; mas se morrer, produz muitos frutos. Para o personagem sobreviver era a resposta, e de alguma forma ser herói de si mesmo, bastava-lhe. A solidão e o isolamento persistiram enquanto marinheiro indo para Leeds. Assim como a sua alma errática. Se trocarmos o homem pelo grão, resta-lhe o quê? Na solidão?
Por fim, seja pela sobrevivência ou a conclusão lógica de todo o aprendizado, se entregou à ajuda, se dispôs à solução, tão óbvia, mas que postergou à exaustão até quase sucumbir.
E, então, “disse adeus pro essa vez a Cristiânia, a todas as casas, a todos os lares, a todas as luzes que brilhavam e rebrilhavam nas janelas.”
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Avaliação: (***)
Título: Fome
Autor: Knut Hamsun
Páginas: 171
Editora: Itatiaia
Jorge F. Isah