A Ressurreição

…

Já se passaram muitos anos…

Foi lá pelos lados da (na época conhecida como) Rua do Fogo…

Hoje região conhecida por Município de Sangão…

A notícia se espalhou rapidamente…

O menino Bertinho, como todos o chamavam…

Apenas 11 anos de idade…

Sobrinho do compadre Manoel e da comadre Joaquina…

Tio do (meu avô) compadre Doro…

Que era casado com a minha avó Delice, irmã da Tia-avó Cantalice…

Mãe e Tia da minha mãe Miquita…

Era ele portanto, o menino Bertinho…

Meu Tio-bisavô por parte de minha mãe…

Sangue do meu sangue…

Estava morto!

Tão novo!

Tristeza muito grande…

Automóvel não havia…

Mas se foi por carro de boi ou por bicicleta…

Se foi de charrete ou se foi por “bater” de canelas…

Ninguém sabe…

Mas o fato é que a notícia se espalhou…

E logo, de perto e de longe…

Os amigos e parentes foram se achegando para o velório…

Mandava o padre e ninguém questionava, que o pranto devia ser de 24 horas, velando assim o corpo daquele que havia então adentrado no Paraíso de Nosso Senhor…

O velório ia adiantado nas horas…

O padre, sacristão e coroinhas se posicionavam para iniciar a triste liturgia…

Os parentes mais próximos choravam…

Os não tão próximos conversavam com sisudo ar de respeito…

Os mais distantes riam e aproveitavam o evento para colocar as fofocas e novidades em dia…

Bertinho deitado no esquife de menor tamanho para a sua pequena altura de 11 anos, indiferente a todos…

Rodeado de flores da cintura até os pés…

Tinha as mãos infantis cruzadas na altura da cintura…

E entre os dedos havia sido colocado de forma reverente…

Um colar do Terço da Divina Misericórdia…

Sopa era servida para os que vieram de longe, mas os de perto também tomavam…

Café bem quente era livremente disposto sobre uma mesa lateral…

Tudo ia de acordo com os conformes da tradição local…

Foi então que o defunto de Bertinho sentou no caixão…!!!!!!

…

Diz a lenda…

Eu não estava lá…

Nem havia nascido ainda…

Não tive oportunidade de conhecer o finado Tio Bertinho…

Mas diz a lenda…

Que a correria foi grande…

E teria havido quem tivesse ficado entalado na porta estreita da casa tentando todos sair correndo do recinto ao mesmo tempo…

Tio Bertinho atônito…

Ressurreto…

Sentado no caixão…

Olhava a todos arregalado sem saber o que estava acontecendo…

A notícia se espalhou por todos os lados…

Tio Bertinho tinha retornado do mundo dos mortos…

…

O fato é que depois de sua primeira morte…

Tio Bertinho viveu muitos anos…

E morreu novamente muito tempo depois com mais de 90 anos de idade…

Todavia, a sua primeira morte tinha cobrado um preço alto pelo seu retorno…

E Tio Bertinho depois de ter sentado no caixão…

Nunca mais cresceu…

Nem em altura…

Nem cognitivamente…

Ficou “adulto” e bem velho…

Mas sempre com a mentalidade de um menino de 11 anos…

E sempre pequenino na altura de um menino de 11 anos…

…

Muitos anos se passaram…

E nos seus últimos dias de vida…

Tio Bertinho demenciou gravemente…

Muito velhinho era então cuidado por sua sobrinha…

…

Um certo dia ele “menino” “velhinho” “ressurreto”…

90 e poucos anos…

Totalmente demente…

Fez as necessidades no seu quarto…

Limpou com as mãos…

E esfregou tudo nas paredes do quarto…

Quando sua sobrinha cuidadora entrou no quarto e viu o estrago…

Gritou desesperada…

“TIO BERTIIIINHO…! TIO BERTIIIINHO…! O QUE FOI ISTO…?”

E ele deu um sorriso de menino-velho sem dentadura e disse todo faceiro…

“É merda pura mesmo…”
“É merda pura mesmo…!”

Natan de Oliveira

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