A VERVE SAPIENCIAL DE TIRIRICA

Certamente você já ouviu falar do Tiririca. Se não ouviu, deve ter visto. Se não viu, deve ter imaginado. Se não imaginou… bem, você é um caso sem solução, e estamos conversados!

Mas quem é o personagem?

Cearense de Itapipoca, ganhou o apelido da sua mãe, pois o menino tinha uma personalidade forte e vivia zangado, do tipo “ele anda tiririca da vida”. E todos em sua cidade natal passaram a conhecê-lo assim, e quase ninguém sabia o seu nome verdadeiro: Francisco Everaldo Oliveira Silva.

Começou na música, apresentando-se em barracas no litoral cearense ou, como muitos chamavam, cirquinhos (diminutivo de circo, para os não entendidos). O sucesso era tanto, com suas músicas de letras dúbias e a apelar para os múltiplos problemas relacionados aos sexos (traição, cornice, malandragem e pouca-vergonha; sempre de maneira jocosa e engraçada), que os barraqueiros da região se cotizaram e arrecadaram o suficiente para lançar as primeiras 1.000 cópias do CD de estreia. Daí em diante, foi o estrelato. Primeiro, no Nordeste; depois, em todo o Brasil.

Por volta de 1997, o sucesso musical estava em declínio e Tiririca, já um artista consolidado no mainstream nacional, estreou um programa de comédia na extinta Rede Manchete. Então, ir para a política foi um pulo, tornando-se um dos cinco deputados federais mais votados em todos os tempos (e o mais votado naquele pleito), quando se elegeu por São Paulo, em 2010.

Quase não pôde assumir o cargo, não por causa de desvios de caráter, imoralidade, vigarice e improbidade, mas por causa dos seus bordões e críticas ácidas ao Congresso Nacional e ao poder público. Não lhe foi exigido qualquer “nada consta” de débitos, certidões negativas de condenações ou processos judiciais, ou enquadrar-se na “Ficha Limpa”.

Nesse ínterim, agentes públicos denunciaram-no ao Ministério Público Eleitoral, pedindo a sua cassação por ofensas sistemáticas aos poderes instituídos. Quase concomitantemente a esse ato, uma revista de circulação nacional (onde estará? Ninguém viu ou sabe mais) denunciou-o por analfabetismo, o que o impediria de assumir no Congresso. A ideia era: bem, se não podemos suprimir os mais de 1 milhão de votos, vamos condená-lo por incapacidade cognitiva e intelectual, além de falsificação. Assim se fez.

Em meio a idas e vindas, “disse me disse”, tentativas de todos os lados, o “palhaço”, como a maior parte da imprensa se referia a ele, teve de, por fim, fazer um teste fundamental: ler determinado trecho escolhido pelo procurador e escrever um ditado. O que não é minimamente exigido de um aluno no ensino médio e na maioria dos cursos universitários, Tiririca teve de se submeter. Afinal, não falta corrupção e fraudes nas instâncias públicas, mas analfabetismo é imperdoável, inaceitável, inconcebível… um crime de lesa-pátria.

Estava evidente o incômodo daquela eleição, pois o país expunha-se tal qual era e é: um circo mambembe, de lona puída e remendada, a revelar a sua ordinariedade. Se o “Casseta e Planeta” promoveu o “Macaco Simão” — há quem diga que era Tião, mas como se diz: cada macaco no seu galho — à Prefeitura do Rio de Janeiro (famoso pela grosseria e por atirar fezes ou o que estivesse à mão nos visitantes do Zoo), e, caso fosse oficializada pelo TRE, seria um verdadeiro desastre — teve mais de 400 mil votos —; se, no Ceará, o Bode 90 concorreu à prefeitura de uma cidade do interior, e o Mosquito da Dengue ganhou as eleições em Vila Velha, ES, Tiririca deixava à mostra o quão bestial podia ser a cena política nacional.

Por fim, depois de várias tentativas de impugnação, o juiz entendeu que Tiririca “tinha certa dificuldade em escrever, mas a limitação era irrelevante porque a Justiça Eleitoral só considera inelegíveis os analfabetos absolutos, e não os funcionais”… Imagina: não seria um tiro nos pés?

O caso ainda foi parar no STF, mas o “palhaço” já havia sido diplomado e assumira a vaga de deputado federal. Foi aplaudido pela galeria do plenário. Todavia, como a maioria dos políticos, aprendeu logo os “macetes” do cargo e empregou dois amigos como assessores, com remuneração de 8 mil reais, em 2011, sem a necessidade de cumprir funções específicas e horários, uma espécie de gratificação por companheirismo. Mas isso não é lá alguma exceção à regra parlamentar.

Hoje, foi reeleito para mais um mandato de deputado federal, não com os assombrosos mais de um milhão de votos de 2010, mas permanece a figura simbólica e também folclórica de um país marcado pelo analfabetismo — pessoal e funcional —, pela pobreza e simplicidade das pessoas, e que se diz levar a sério, mas não passa de uma piada pronta, às vezes hilária, às vezes tragicômica, na maior parte do tempo fatídica e sombria.

Ele está muito mais comedido, sem o carisma do personagem e o sincero escárnio aos seus pares legislativos. Talvez, por isso, seja uma figura quase invisível, e, na última eleição, amealhou pouco mais de 70 mil votos. Não é pouco, mas está longe das dezenas de milhares do passado.

Com seu jeito irreverente, faceiro e um certo “atrevimento ingênuo”, conquistou crianças e adultos, com a sua espontaneidade, deboche e um tipo de maneirismo acidental, quase natural.

Tiririca é o retrato do Brasil e, como ele mesmo diria: “o Brasil é o retrato do Tiririca”. Se não fosse assim, onde estaria a graça, não é?

Ah, e nenhum lugar é mais propício para ele do que o Distrito Federal, mormente o Congresso.


AFORISMOS DO TIRIRICA  — PARECE BRINCADEIRA, MAS É SÉRIO —:

“Feliz é aquele que não é triste.”

“Se você parar pra pensar, você pensa parado.”

“Não importa onde você esteja, você sempre estará lá!”

“Muitas vezes tentei fugir de mim, mas aonde eu ia, eu tava.”

“Pior do que tá não fica, vote Tiririca.”

“Quando eu falei que ‘pior que está não fica’, não sabia do potencial da Dilma.”

“A Câmara é uma fábrica de loucos.”

“Você sabe o que faz um deputado federal? Na realidade, eu também não sei, mas vota em mim que eu te conto.”

“Jamais esquecerei das coisas que me lembro!”

“Cansado de estar cansado porque estar cansado é cansativo.”

“Eu já construí muitas escolas, era servente de pedreiro!”

“Uma coisa é certa… Se não é verdade, é mentira.”

“Eu quero ser deputado federal para ajudar os mais necessitados, inclusive a minha família…”

“Se tem uma coisa que acaba com meu dia é a noite.”

“Homem dá tanto trabalho que nenhuma mulher deveria ser considerada desempregada.”

“A preguiça é o melhor dos 7 pecados, pois ela te impede de cometer os outros 6.”

“O amor é lindo! Às vezes, o casal que é feio.”

___________________________

                                              Jorge F. Isah

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados