Quais as chances de um arquiteto de 1,93 m de altura, desengonçado, trajando roupas coloridas, berrantes e sem harmonia, com um enorme girassol na lapela, óculos escuros e uma voz mais para repentista do que cantor de boleros, letras bregas e composições simples, pautadas por muito humor, ironia e deboche?… Talvez, em qualquer outro lugar do mundo, ninguém daria nada por ele, e o fracasso seria imediato e retumbante. Entretanto, estamos a falar de um ícone da música brega brasileira (nada a ver com MPB, diga-se, mas MBB), o sempre folgazão e atrevido Falcão.
Nascido em 1957, em Pereiro, Ceará, Marcondes Falcão Maia, durante a infância, ouvia músicas de Waldick Soriano, Nelson Gonçalves, Beatles, Jovem Guarda e Orlando Silva, além de cantores italianos. Seu pai, farmacêutico, era o único na cidade a ter uma vitrola e o filho sonhava, um dia, fazer sucesso como músico e cantor.
Aos 12 anos, chegou a Fortaleza para completar os estudos regulares. Aprendeu a tocar violão, de ouvido, sem qualquer instrução formal na área. Ingressa na Escola Técnica Federal, forma-se em edificações e começa a trabalhar como desenhista. Após 5 tentativas frustradas, passa no vestibular de Arquitetura e começa os estudos na U.F.C. Ao mesmo tempo, junto com amigos e alunos do curso de Comunicação Social, publica “Um Jornal Sem Regras” e funda o grupo musical “Bufo-Bufo”. Periódico e música tinham apelo político, mas Falcão insistia em não deixar as coisas bandearem para a severidade e o estilo de denúncias e protestos, alterando letras para se tornarem mais cômicas.
Em 1990, estreou o disco independente “Bonito, Lindo e Joiado”, e com isso, decidiu abandonar o escritório de arquitetura, onde trabalhou por 3 anos após a formatura. Surgia o primeiro de muitos sucessos, a canção “I’m not dog no”, traduzida para o inglês de um grande sucesso de Waldick Soriano, “Eu não sou cachorro, não”. Com o advento das FMs espalhando-se por todo o país, e o número maciço de músicas estrangeiras nas rádios e tvs (nessa época surge também a MTV e outros programas musicais), Falcão achou que assim ganharia maior atenção para as suas composições.
A guinada em sua carreira deu-se por meio do padrinho, Raimundo Fagner, fã incondicional e que o apresentou à direção da gravadora BMG. Contrato assinado em meio ao estouro nacional de “I’m not dog no”, ele grava o álbum “O dinheiro não é tudo, mas é 100%”, em 1994. O carro-chefe era a música “Black people car”, tradução do sucesso brega de Almir Rogério, “Fuscão Preto”. Daí em diante, é história…
O seu estilo poderia ser definido como o “homem sem voz e talento musicais mas que faz música irreverente, fácil e brega”. Contudo, não se pode afirmar, em hipótese alguma, não haver talento em alguém que, somente em seu segundo disco, lançado pela BMG, vendeu mais de 240.000 cópias, o badalado “A besteira é a base da sabedoria” (1995), teve programas de rádio, tv, fez filme e shows em palcos e tablados de todo o país.
Apaixonado pela música de Bob Dylan, Zappa, Belchior e Zé Ramalho, mas percebendo não ser capaz de seguir os passos dos seus ídolos, aventurou-se em moldar um estilo o mais próximo da sua personalidade: ousada, descontraída e zombeteira, um tanto libertina. Como disse de si mesmo, certa vez:
“Embora eu não seja muito romântico, sempre gostei dos bregas. Me apropriei disso porque percebi que era uma música fácil e, como eu não era músico, não podia fazer nada muito elaborado.”
Também faz parte da sua galeria de sucessos, além das músicas citadas: “Homem é homem” e “I love you tonight”. Tem um livro com frases de efeito, “Leruaite: Falcão e Heterônimos”, que também é o título de um programa de talk show, apresentado pelo cantor. A expressão “leruaite” é uma gíria nordestina para bate-papo, conversa, e nada mais apropriado usá-la, não é!
Afinal, quem considerou impossível a união entre música e humor não conhece a história ou perdeu-a em meio à chatice deste século (lembra-se de Juca Chaves, Arnaud Rodrigues, Moacyr Franco, e as antigas marchinhas de Carnaval? E os Mamonas Assassinas?). Porém, Falcão está aqui para provar o improvável e fazer-nos rir e divertir com as “gags” sem limites, em um mundo sacal e linear, onde tudo é ofensivo menos as verdadeiras ofensas, cheias de rancor, melindres e o politicamente correto.
Pode-se não gostar do gênero, eu mesmo não sou fã, mas existe lugar para todos os gostos, mesmo os menos musicais e sofisticados como o funk, rap, punk e, claro, o Brega. Ouve quem quiser, e pronto! Só não sou a favor dos “tocadores” em volume alto, sejam vizinhos, pedestres, motoristas ou passageiros a impor a sua predileção à revelia da vontade alheia. Por isso, e graças a isso, existem os fones de ouvido e ambientes acústicos apropriados, ou melhor, vedados aos ouvidos sensíveis e apurados. Mas isso é também outra história…
A verdade é que, mesmo não gostando do gênero, é possível dar boas risadas ouvindo o que Falcão tem a dizer ou não, com o seu jeito galhofeiro e pândego. E a gargalhada pode não exercitar neurônios e sinapses (o que duvido), ao menos exercitará os músculos faciais e livrará os sorridentes de rugas precoces.
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FRASES:
“Como eu já disse, nunca repito o que falo.”
“Porque é melhor comer doce de leite com os amigos do que merda sozinho.“
“Mulher feia e jumento perdido, só quem procura é o dono.“
“Quanto mais voltamos ao passado, mais corremos o risco de encontramos o que passou.”
“Amanhã será tomorow.“
“Qualquer um pode ser vencedor, desde que não haja nenhum concorrente.“
“Talvez seja melhor calar porque falando é meio caminho andado, por outro lado, eu fiz um estudo e sei que é melhor falar besteira do que ser mudo”
“Não existe nada como um dia atrás do outro com uma noite no meio.“
“Hoje eu tô que nem cavalo em Sete de Setembro: andando, cagando e sendo aplaudido.”
“Para mim uma coisa é um padre, um menino e um jegue, outra coisa é um pneu de caminhão.“
“Eu acho melhor escapar fedendo do que morrer cheiroso.“
“A sociedade não pode viver sem as pessoas.”
“Chifre é como assombração, geralmente aparece pra quem tem medo.“
“É melhor cair em contradição do que do oitavo andar.“
“No Brasil nem tudo está perdido. Muita coisa ainda há para se perder.”
“O pior cego é aquele que não vê.“
“Ela é o que há de mais fino em matéria de grossura.”
“Homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado. Homem é homem, menino é menino, político é político e baitola é baitola.”
“Constatei que somos todos uns deserdados das opíparas putocráticas invólucras do entardecer.”
“Dois passos pra frente e um pra trás são aceitáveis; mas se forem simultâneos, pode ser queda.”
“Melhorar a produção literária deste País descapitulado, pondo de vez um fim à interminável Semana de 22.”
“Tenho a leve suspeita de que daqui a 10 anos estaremos completando uma década”.
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Jorge F. Isah