Não sei vocês, mas quase dá vontade de comprar uma ilha deserta e nela me embrenhar para fugir de toda esta loucura diária. Por aqui, nada de refresco. Se souber de alguma à venda baratinho e em suaves prestações, me avise. Mas nada de cobrar comissão.
Não sei vocês, mas se desse para pular fora e sair do barco, eu seria o primeiro a me aventurar na companhia de tubarões, orcas e cardumes de piranhas.
Não sei vocês, mas se para mim um pingo é letra, para a maioria a fartura de palavras e clichês significam nada ou qualquer coisa — a depender de quem fala, ouve e as repete como papagaio mal treinado.
Não sei vocês, mas as notícias e pronunciamentos sempre envoltos em lorotas, matracas e disparates, não anunciam nada de novo, muito menos coisas boas; são obituários com local e hora marcados. Só falta você levar as flores.
Não sei vocês, mas se pecados, deficiências e vícios são exaltados e ascendidos ao nível das virtudes, e estas desabam ao nível das anomalia. Eles nada enxergam, cegos guiados por cegos, cada um puxando o outro pela camisa, felizes em direção ao abismo, apenas discutindo qual deles será o primeiro a cair.
Não sei vocês, mas se o bem se torna em mal, e o mal em bem; o doce em amargo, e o fel em doce; a luz em trevas, e trevas em luz, não há sentido nos sentidos, nem razão nas leviandades.
Não sei vocês, mas se os bandidos são justificados e os justos não encontram justiça, pelo contrário, pagam pelo que não fizeram e são criminosos por apontar os delitos, nada sobrou a não ser aquele chope aguado, futebol e corpos pelados na avenida. César que o diga!
Não sei vocês, mas se berimbau é instrumento e funk é música, ser surdo não é de todo mal.
Não sei vocês, mas se o poste mija no cachorro e as pessoas são identificadas por seus fluídos corporais, a prisão de um gato por furto não é questão de tempo, mas já aconteceu.
Não sei vocês, mas se piercings, alargadores e tatuagens fossem naturais, não queria estar na pele das futuras mamães.
Não sei vocês, mas este texto já encheu o saco! E se chegou até aqui, não se assuste: posso fazer pior!
Jorge F. Isah