Não sei se o amor é como uma melancia, mas o fato é que ambos exigem coragem para serem devorados inteiros. E confesso, leitor, que me faltou essa coragem — não a do amor, mas a da decisão.
Conheci-o na faculdade, um rapaz das exatas, exato demais para o caos que se fazia em meu coração. Era gentil sem esforço, discreto em sua devoção, como quem ama mais com os gestos do que com as palavras. Dava-me o vale-transporte como quem dá uma flor, e sua presença era bálsamo para as minhas inquietações.
Um dia, sem rodeios, pediu-me em casamento. Não houve anéis, nem juras eternas; apenas um pedido simples, como quem oferece um destino compartilhado. Meus olhos disseram sim, mas a boca — essa traidora socializada — disse não. Fui vencida pela lógica dos bons costumes, pelas regras de uma família que via no presbiterianismo e na estabilidade financeira as colunas da felicidade conjugal. Era um tempo em que o diploma valia mais que a ternura, e a religião, mais que o afeto.
Casei-me, então, com um Adônis da alma e das artes: tocava, pintava, esculpia, e declamava como se as palavras lhe brotassem da própria epiderme. A princípio, a vida era um sarau. Depois, tornou-se um delírio. A arte que antes me encantava passou a ocultar sua lenta fuga da realidade. A beleza de seu espírito não resistiu à feiura do cotidiano.
Certa vez, surpreendi-o tentando cobrir nosso filho com mel e suspender-lhe pela janela, como se o néctar divino pudesse torná-lo imune à gravidade. Interrompi-lhe a experiência antes que a criança se tornasse mártir da imaginação paterna. Internei-o — sim, essas decisões pesam mais na alma do que nos ombros —, e ele partiu para um sanatório, onde talvez tenha encontrado paz em meio aos que também não sabem viver neste mundo.
Voltei à vida como se volta ao palco depois de um drama mal encenado. Na praça, avistei um homem que gritava o desafio: “Aquele que comer uma melancia inteira, não paga!” Sorri. Já não tinha pressa de pagar nada à vida. Preparava-me para aceitar o desafio, quando avistei-o — meu velho amigo, aquele que um dia amei e rejeitei com a polidez dos covardes. Estava ali, com os mesmos olhos calmos, agora tingidos pela saudade.
Aproximei-me como quem caminha em direção a um tempo perdido. Abraçamo-nos. Conversamos. Ambos divorciados, ambos com filhos, ambos com cicatrizes que não nos deformam, antes humanizam.
Ao final, saímos dali quase casados — com a leveza de quem já não precisa pedir permissão à tradição nem desculpas ao passado.
O vendedor ainda gritava a promoção da melancia. Pensei em aceitar. Mas talvez fosse deselegante comer uma melancia inteira no primeiro reencontro com o destino que ainda hoje me completa e dá sentido ao meu viver.
Cláudia Ribeiro Fonseca