QUASE CHEGANDO

Essa é uma frase que ouvimos ou dizemos quando estamos ansiosos para chegar a um lugar, nos consolamos, ou alguém nos acalma quando, na maioria das vezes, não corresponde ao tempo e à distância reais.

Lembro-me de estar na estação de ônibus, dessas recentes, enormes e construídas como grandes centrais para comboios metropolitanos.

Uma fila enorme, tinha umas cinquenta pessoas serpenteando à beira da plataforma, quando, de repente, em meio ao silêncio das pessoas, algo raro numa fila de pessoas ansiosas: um celular toca e um sujeito baixinho e forte, com ares brefeiros, grita a interjeição: “Alô!”

O que se segue, foi hilário. O interlocutor, do outro lado, cobrou ou exigiu alguma coisa, e o cabra, para se safar, respondeu bem alto na fila, e todos ouvimos:

— Depois, você me liga! Estou dirigindo agora! — e guardou o celular. A cara nem queimou!

Desculpas podem adiar coisas, confrontos, compromissos e até acho que conseguem. Mas adiar não significa se safar. É como ter algo amarrado nos pés, ainda que seja por uma corda longa. Há, sem dúvida, não bastando nenhuma crença atenuante ou nenhum mito escapista, algo que é definitivo, o fim das coisas. De objetos, de relações, de amores, de paixões, de trabalho, a lista é infinita ou mais exatamente impossível de ser listada completamente.

Vemos esse horizonte por uma vidraça embaçada que, inconscientemente, recusamos limpar para ver o real horizonte. Pior que, quando alguém o vê, tentamos consolá-lo com a mesma honestidade do “quase chegando”, não as mesmas palavras, mas a mesma intenção de não encarar a verdade.

Na teoria do discurso, em todo argumento existem lacunas intencionais ou acidentais; quem argumenta, ignora coisas importantes ou as percebe e as preenche com qualquer outra coisa. É a prática e o exercício do palavrório, o preenchimento com palavras, que se forem retiradas não fazem falta alguma, pois não acrescentam nada ao argumento: apenas dá ao falante, diante das outras pessoas, ares de educação elevada e verniz de erudição.

Quando ouço ou leio os argumentos de qualquer pessoa, de qualquer posição ideológica ou religiosa, e até mesmo jornalismo científico, risco mentalmente todas as palavras e frases desnecessárias, e raramente sobra algo que valha realmente a pena.

Há duas maneiras de se dizer as coisas: concisa e verborragicamente. A primeira, com poucas palavras se transmite a ideia, a mensagem que se deseja. A segunda, testa a paciência do ouvinte.

Bem, há muita coisa acontecendo no mundo. O palavrório e o falatório da mídia, diuturnamente alardeada pelos “especialistas”, tenta descrever o presente e adivinhar o futuro, e todos os dias erram a cada texto, entrevista ou opinião.

Mas calma, estamos quase chegando…

Helvécio Pereira

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