NO EXÍLIO – Elisa Lispector

Elisa é a escritora menos famosa da família Lispector. Os holofotes, na maioria das vezes, são reservados para a irmã caçula, Clarice. E, convenhamos, apesar do talento de Elisa, as homenagens à irmã não são exageradas ou inflacionárias; o que, entretanto, não significa dizer que Elisa careça de mérito ou seja uma autora desnecessária. E a prova está aqui, neste romance autobiográfico em que a vida da família Lispector se mistura aos dramas e expectativas do seu povo e nação: judeus e Israel.

À primeira vista, “No Exílio” pode significar apenas mais uma saga de imigração, a busca de novos ares, a sobrevivência e a concretização de sonhos. Porém, à medida que a narrativa flui, a história dos refugiados se mistura e entrelaça com a formação do novo estado israelense.

Vivendo na recém-fundada U.R.S.S, após a revolução Bolchevique, os Lispectores (Pinkhas e Mania, pais; Elisa, Tania e Clarice, filhas) são perseguidos, assim como outros tantos judeus, por vários grupos revolucionários (pogroms), e a trágica perseguição, expropriação, execução e massacre de vilas e cidades é consentida pelo governo soviético que, direta ou indiretamente, colabora com o extermínio sistemático de comunidades inteiras no território russo, indo além de suas fronteiras, como nas áreas conquistadas durante a Guerra Civil. Tais acontecimentos proliferaram massivamente na Ucrânia, país de origem da família de Elisa e uma das maiores colônias de judeus da Europa. Odessa, por exemplo, chegou a ter, no início do século XX, um terço da sua população composta por judeus.

O cotidiano era de incertezas, ameaças, invasões e mortes sumárias, sem contar os inúmeros casos de chantagem, saques e ataques generalizados às comunidades: destruição de sinagogas, da identidade cultural e religiosa, profanação com a queima de rolos e pergaminhos da Torá, outros textos sagrados e símbolos. Fica evidenciada uma “diáspora” naquele momento, em que as pequenas localidades eram dizimadas e populações de judeus se viram obrigados a fugir para as maiores cidades, a fim de se protegerem. Eles eram acusados pelos monarquistas de bolcheviques, enquanto os bolcheviques lhes imputavam monarquismo e burguesia.

Na primeira parte, Elisa descreve a estrutura familiar, a sua infância, apreensões e anseios. Estamos diante da luta pela sobrevivência, onde os valores morais, tanto à vida como ao patrimônio, são sistematicamente destroçados. Ela relata incidentes com amigos e vizinhos, e o banho de sangue que todas as revoluções se especializaram em ostentar como marca registrada. A ideia de que os judeus são usurpadores, enriquecem ilegitimamente, exploram o semelhante, sempre foi o axioma para a extorsão, roubo e aniquilação. É uma fonte de renda sem impedimentos ou obstáculos e, via de regra, em vários momentos da história, foram implementadas como solução.

Os incidentes soviéticos são referenciados como “laboratório final” para a “solução” germânica do holocausto. De uma forma até então inimaginável, salvo a inquisição, o “ensaio geral” revelou que o genocídio semita seria “première” de estrondoso sucesso.

Nesse contexto, os Lispectores decidem se mudar para a América, e as poucas reservas financeiras são gastas com “coiotes”, aproveitadores sem quaisquer escrúpulos, sob a tutela de uma burocracia corrupta que amealhava facilmente o seu quinhão. Engraçado notar que os mesmos a acusarem os judeus de desonestos são a hipérbole da vilania.

Em meio a esse caos, Hitler e os nazistas começam a ascender a cargos e postos na Alemanha, derrotada na Primeira Guerra, e o espírito antissemita se alastra célere pela Europa. Mas, talvez, em lugar nenhum antes dos campos de extermínio do 3º Reich, os prenúncios do que viria a acontecer foram tão explícitos como na União Soviética.

Na segunda parte, Elisa descreve o périplo, onde a fuga era a única saída e a esperança estava a além-mar, do outro lado do Atlântico. As comparações com o êxodo de Israel, do Egito à Terra Prometida, ganham contornos de similaridade,

Aportam em Maceió, em 1922, e são recebidos pelo irmão de Pinkhas, Samuel, e esposa, estabelecido como empresário na capital alagoana. Por essa época, os nomes ucranianos foram substituídos por correlatos: Pinkhas virou Pedro, Mania virou Marieta, Chaya virou Clarice.

Samuel não deu vida fácil ao irmão, recém-chegado. De todas as formas, procurou explorá-lo, utilizando-se da inexperiência e baixa comunicação dele entre os nativos. Por três anos, Pinkhas foi aviltado, até que se cansou da situação e resolveu partir para Recife, em novo êxodo, à busca da tão sonhada terra prometida.

Lá, trabalhou como vendedor, e abriu um pequeno negócio de secos e molhados. Mas a penúria financeira da família era grande, agravada pela doença degenerativa da matriarca, cujos cuidados ficaram a cargo de Elisa. Ela também era responsável pelos afazeres da casa, do pai e das irmãs menores. Havia uma ligação mais forte com Pinkhas, estudioso da cultura judaica e escritor para jornais israelenses, e que estimulava a primogênita com conversas sobre as mazelas do seu povo, os rumos políticos que o Ocidente tomava e a necessidade de mudanças. O crescente antissemitismo na Europa era a predição de dificuldades ainda maiores para o seu povo.

Elisa descreveu os seus obstáculos, desejos e escolhas, como a de não se submeter ao casamento arranjado, mesmo reconhecendo as boas intenções paternas. Formou-se na Escola Normal de Pernambuco e estudou no Conservatório de Música, iniciando o magistério com crianças em Recife.

Por essa época, o 3º Reich tomava forma na Alemanha, e Hitler se tornara um homem poderoso, líder carismático e populista, assumindo o título de Chanceler em 1933. Dois anos depois, os Lispectores mudaram-se para o Rio de Janeiro.

Não há, na obra, citações do desenvolvimento educacional e artístico da irmã Clarice. As referências são esparsas e econômicas, mais voltadas para o dia a dia da família. Isso se dá, pois a autora se preocupa em relatar o seu próprio exílio, inclusive por não se enquadrar no esquema rigoroso da cultura do seu povo. Também, ela foca no exílio paterno, ao qual Pinkhas nunca se submeteu, e melancolicamente se convencia do abandono dos concidadãos pelas nações; e em graduações diferentes, da conivência e sustentação das políticas antissemitas e a favor dos muitos “pogroms”.

Clarice, Tania e os demais membros foram tratados perifericamente, à exceção da mãe, sua doença e suplício, que trazia tanto desconforto à família, especialmente Pinkhas e Elisa, num nítido paralelismo com a aflição do povo judeu.

Não entrarei em mais detalhes, para não tirar o prazer do leitor em se debruçar sobre “No Exílio”. A linguagem empregada pela autora é fluida, simples sem ser banal, formal sem ser hermética. O estilo é quase linear, cronológico, com esparsas digressões e baseado, majoritariamente, no pensamento e reflexões de Elisa e Pinkhas. E, como disse no início, não se pode esquecer das constantes relações entre as peripécias familiares e analogias com a situação de Israel naquele período — as implicações entre ambas se entrelaçam, numa rede da qual, especialmente o patriarca, não pôde se desvencilhar. Os dramas se cruzaram e se atravessaram num quase permanente estado de angústia tricotômica.

Podemos conhecer um pouco mais da história e do exílio individual e coletivo dos Lispectores e da comunidade judaica.

Não é um livro alegre. Não existe esperança, porque o sofrimento de um é o sofrimento de todos, mesmo que nem todos estejam em martírio. Restou a Elisa e os seus aceitarem o exílio, e reconhecerem que não existe, neste mundo, uma terra prometida.

______________________________

Avaliação: (***)

Título: No Exílio

Autora: Elisa Lispector

Editora: José Olympio

Páginas: 210

______________________________

Jorge F. Isah

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados