Para os que me perguntam, digo que sou cristão. Fui batizado, arrependi-me dos meus pecados, procuro não reiterar erros e não praticar novos pecados dolosamente, faço orações várias vezes ao dia, leio a Bíblia, vou à igreja, acredito que Jesus é o nosso único salvador, enfim, todas essas coisas que se esperam de um cristão. Mas hoje pela manhã, por volta das 8h30, estava passeando perto da minha casa com a minha “pet”, e existem dois pontos onde ela habitualmente gosta de fazer os seus defecos, em pequenas áreas gramadas de condomínios (não são praças), e nesses locais a libero da coleira. Sempre que passa alguma pessoa por perto, procuro me adiantar, dizendo que ela é super mansa, a maioria entende, sem que nada de mal aconteça. Algumas até param, comentam que ela é muito bonita e já fiz algumas amizades por conta disso.
Contudo, existe um velho, obeso e mal humorado que passeia com o seu cão Corgi, igualmente velho, obeso e mal humorado, e nunca cumprimenta ninguém. Pois estava eu em uma dessas áreas gramadas, com o bicho sem a coleira, e vi que, no mesmo passeio, a aproximadamente 100 metros, estava esse sujeito parado olhando para mim e apontando nervosamente para o seu cachorro. Como não entendi nada, continuei (esqueci de dizer) escutando as minhas músicas com o fone de ouvido sem fio, enquanto o animal sob a minha tutela realizava o seu serviço sujo.
O homem atravessou a rua e, quando chegou próximo de onde eu estava, porém, do outro lado, começou a gritar:
– Agora posso atravessar a rua?
Fiz um gesto de que não entendi, e ele gritou novamente:
– Agora posso atravessar a rua?
Tirei o fone de ouvido e respondi que não entendi (e não entendi mesmo).
– Agora posso atravessar a rua?
Respondi assim: “faça o que você quiser”.
– Cachorros devem ser mantidos na coleira! – ele gritou, colérico.
– Ela é supermansa. Não há nenhum perigo – respondi.
– Cachorros devem ser mantidos na coleira! – ele gritou mais uma vez.
– Vá se lascar (acho que foi isso que falei)! – coloquei a coleira no bicho fui embora.
Porém, são 11 horas e ainda não parei de pensar no assunto. Quando sou abordado dessa forma arrogante, fico como um cão bravo que, quando provocado, continua rosnando durante um bom tempo e é capaz de ir atrás do agressor, só pelo faro, para mordê-lo, caso liberem a sua coleira. Eu não uso coleira. Talvez tenha que usar. Será que posso ainda denominar-me cristão?
Michel Salomão