Série Netflix: “Adolescência”

Uma série que está causando rebuliço é “Adolescência”, produzida pela Netflix. Como sempre, em um mundo polarizado, onde o equilíbrio não existe e quem berra mais acaba ganhando literalmente “no grito”, é possível ler, ouvir e ver amigos e inimigos —, quase sempre pelo filtro ideológico, sem que a carapuça sirva — se digladiar e assumir o posto de “a última bolacha do pacote”.

      Existe quem a considere uma obra Woke, onde os homens são coisificados por assassinos e bestas misóginas; e ainda o fato de colocar os “brancos” em situação delicada, já que o crime, segundo alguns, ocorreu pelas mãos de um garoto negro. Ora, existe uma grande variedade de homicídios praticados por crianças e adolescente de diversas etnias no mundo, e a série, por ser uma ficção, não precisa se basear ipsis litteris em um fato real. Se fosse assim, seria um documentário, como tantos realizados pelo streaming. Na verdade, quando se quer ver chifres em cabeça de cavalo, qualquer verruga ou saliência se transforma em guampa… Por outro lado, há os que a consideram um chute no traseiro dos machistas de plantão. Ambos, à sua maneira, pedem o cancelamento ou o Emmy. Na verdade, há muito mais além dos dois neurônios vermelhos ou quatro verde-amarelos nesta produção que, diga-se, não é tupiniquim, mas britânica.

      Primeiro, quero ressaltar as filmagens, com cenas de tirar o fôlego, realizadas em um plano contínuo — ou plano-sequência — onde a câmera passeia por rostos, corpos, cenários sem edição e cortes. Algo de encher os olhos, em um mundo já dominado pela IA e por cenários, roteiros e efeitos artificiais. Isso imprimiu realismo e autenticidade ao espectador, mesmo a gente sabendo ser uma produção onde diálogos, ritmos, enquadramentos e cenários são meticulosamente escolhidos, reproduzidos, ensaiados e, enfim, filmados. Ponto para o diretor Philip Barantini.

      Segundo, além desse aspecto, o roteiro enxuto e criativo, aliado às interpretações destacadas, em especial as de Stephen Graham (roteirista e produtor) e Owen Cooper, de 15 anos, elevam em muito o nível da produção.

      Terceiro, a essência da história não parece bem definida para a maioria dos críticos. Alguns conseguem ver o que não há para ver, enquanto outros deixam de ver o que há. Em um universo recheado de opiniões, para todos os gostos e tendências, fica difícil saber onde começa e onde termina o equívoco e o contrassenso.

Quarto, a Netflix tem errado muito ultimamente e flertado com o fracasso. A maioria dos filmes e séries produzidos nos últimos cinco anos tem se demonstrado um “clichezão” sem fim. Pautas antimasculinas, antirreligiosas, antifamília, pró-aborto e drogas — a quase totalidade da agenda politicamente correta — não têm atraído a atenção do público em geral, que, via de regra, está se lixando para discursos políticos e muito menos disposto a perder tempo diante de um palanque. Os esforços de empurrar goela abaixo ideologias — mesmo diante de fracassos e prejuízos recordes — não têm levado a empresa a desistir de suas bandeiras, a despeito de a maioria dos mortais estar mais preocupada com a própria sobrevivência e da família do que com a extinção do Oecanthus laricis, p.ex.

Porém, ao menos em dois momentos — os que pude acompanhar — ela acertou e parece estar disposta a mudar o rumo do seu catálogo, se não completamente, a fazer um “Half and Half” , o que já seria bom: trata-se de “Bebê Rena” — produção inglesa, também — e “Adolescência”.

O objetivo aqui não é contar a história e resumi-la para os preguiçosos, indispostos a ver os quatro episódios de 50 e tantos minutos cada. Para quem estiver disposto a fugir do viés político, da lacração e reducionismo, a série tem elementos suficientes para fazer refletir sobre o momento atual. Eu mesmo me vi a pesquisar termos que sequer imaginava existir, como Incel e RedPil. Sou da velha-guarda, gosto de filmes antigos e em preto e branco, leio os clássicos, e não me empolgo com os raros dribles do “elástico” quando, antes, chapéus, bicicletas, canetas, gaúchas, voleios e até mesmo as “carretilhas” eram comuns na maioria dos jogos. O fato de ser meio avesso às redes sociais não me ajuda muito a entender estes tempos quase sempre ininteligíveis e seus espetáculos bizarros.

O mote é um assassinato. Uma colegial de 13 anos é brutalmente morta a facadas. Isso já mostra que a proibição de armas de fogo não impede crimes. Os torna mais lentos e, por isso, mais violentos. O motivo da discussão não é quem matou, isso se sabe já no primeiro episódio, mas a razão e motivos pelos quais se matou. Questões como bullyings, desprezo, popularidade — ou falta —, empatia — ou falta —, o quanto os pais têm controle sobre o que os filhos veem, como as pessoas se tornam solitárias em multidões, e vários aspectos de relacionamentos entre jovens, pais e professores são levantados mas sem que se chegue a uma conclusão. Na verdade, a série não se propõe a isso. Antes, ela questiona, cavouca, pergunta, sem veredito.

Um ponto que me chamou a atenção é o fato de, em alguns momentos, especialmente da molecada, me vi transportar para o tempo de escola, ginásio e faculdade, onde as troças, provocações e disputas eram resolvidas com menos violência do que supõem pedagogos, psicólogos e terapeutas ao condená-las. Parece que a emenda saiu pior do que o soneto, e o excesso de proteção impediu as crianças e adolescentes de amadurecer, de se prepararem para este mundo cada vez mais insano — antes as tornaram mais frágeis e psicóticas. Se décadas atrás chegávamos em casa com alguns hematomas e cortes, hoje, a juventude espera o rabecão.

Outro aspecto, já ao final, parece anunciar algo salutar: a verdade traz alívio, seja ela qual for. É melhor aceitá-la, e a vida seguir o seu curso, do que se atolar em um mar de instabilidades. Mas a despeito da verdade, que parece ser inevitável, impossível de esconder, o arrependimento é algo desnecessário. Paga-se pela verdade, mas não com o peso do arrependimento, porque ele não existe. Seria como furtar o Nintendo do coleguinha, esmagá-lo com os pés, ficar de castigo e, após cumprir a pena, fazer o mesmo com outro coleguinha. A moral só é um peso quando o imoral é pego em flagrante.  

Se tem algo a me incomodar mesmo em séries tão positivas como “Adolescência” é o fato de, ainda que o julgamento seja individual, a sociedade nunca deixa de estar no banco dos réus. Parece que o mal existente em todas as pessoas é incapaz de se manifestar nelas, é concentrado em um ou (uns), criminoso(s) e, a ele, nunca pode se imputar toda a culpa; afinal, existem tantos maus exemplos, mentes caóticas  e diabólicas, com discursos nocivos, de que o infrator é o menos culpado. Isso é uma falácia, ainda que existam incitadores, manipuladores; mas sempre, por escolha pessoal, o indivíduo é o culpado — e sempre estará diante dele o fazer ou não fazer. No máximo, um grupo de indivíduos, em conluio, pode praticar um crime, mas a autoria é e será sempre de cada um, ainda que todos sejam agentes.  Até mesmo em casos de coação, chantagem e ameaça existe uma saída moral; mesmo diante da pressão é possível resistir à tentação de provocar o mal.

Este também é o mote para regular redes sociais, postagens e impedir a livre opinião. No mundo, sempre foi assim. Desde quando o homem é homem. Contudo, ao menos nos últimos cem anos, a desconstrução do bem — e por bem refiro-me a Deus — culminou em algo próximo de um ‘desastre anunciado’: o homem alçando-se à condição de medida absoluta de si mesmo, desconectado de qualquer transcendência.

Se antes havia uma ovelha negra em cada família, presumivelmente, hoje, também presumivelmente, existem negras e malhadas. A ordem deu lugar ao caos, a disciplina à rebeldia, a objetividade à relativização, a empatia ao repúdio, e por aí afora. Claro, não é o fim do mundo, ainda. Todo homem, por pior que seja, por mais perdido que esteja, tem a centelha divina em si, mesmo soterrada por camadas e camadas de perversão e anomalia. Enquanto a solução estiver em rótulos de tarja preta, em técnicas e terapias que não confrontem as pessoas e atenuem suas escolhas e consequências, e as deixam mais à deriva, o mundo caminhará como o deus deste século quer… e não adiantam desculpas, porque elas simplesmente impedem a verdadeira cura: o arrependimento.

Se fosse apenas essa a conclusão de “Adolescência”, já seria um ganho e tanto, diante das tolices produzidas em streaming. Porém, ao que consta, é mais fácil buscar um culpado entre paredes, lençóis, desenhos, arengas e, mais convenientemente a internet, carinhosamente apelidada por alguns críticos de “machosfera”.

E o jogo continua.

Jorge F. Isah

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