Eu tenho uma ocorrência peculiar que, às vezes, cai sobre mim: a de chegar a sentir saudades. Não de momentos e pessoas que se foram, mas uma estranha saudade: a saudade de mim.
Sei que o tempo nos obriga à mudança, uma evolução que parece não ter fim.
Se paramos, é desistência, relutância ou, ainda, a falta de adaptação ao mundo. Mas não me refiro a essas querelas. Este texto não é um balcão de reclamações, pedido de comiseração alheia, nem a síndrome de Peter Pan, de um cidadão que não quer crescer. Eu sinto essa implicante nostalgia, às vezes, de quando a esperança era, para mim, algo tátil e menos utópico — palavra essa que eu inventava meios de contradizer.
Pode até parecer que eu sinta vontade de voltar à tenra infância ou a algum tipo de passado glorioso, heróico e perfeito. Não é isso, pois, claramente, isso não existiu.
Eu tenho saudades de alguém que não era narcisista — não que eu, atualmente, seja — de alguém mais idealista, pacifista, guerreiro e outras coisinhas. Claro que não dos defeitos. O que pesa é que, no decorrer de nossa história, vamos adquirindo e desenvolvendo habilidades e hábitos e deixando outros para trás. Distanciamo-nos de pessoas, lugares, projetos, e é natural e saudável que assim seja feito. Eu gosto de quem sou agora e ainda tenho que fazer uns ajustes. Não sou perfeito…
Eu não tenho crise de identidade ou crise da meia-idade, mas eu falo dessa estranha saudade de mim mesmo.
Escrevo porque é a forma que eu tenho de dizer o mundo, de brincar com as palavras e conceitos. Dessa forma, são poucos os momentos em que não persisto em me reconhecer e em reconhecer o outro eu que não vejo mais.
Glayson C. Marcelino