O céu era de um azul embaçado, salpicado de aves e seus voos alheios ao mover das ondas, em águas esverdeadas até atingirem os bancos de areia e se transformarem num verde camuflado, enquanto o sol tentava curar um pileque e recuperar as forças. Pisquei os olhos e senti os nervos se distenderem, mas a visão permaneceu escorregadia…Alguns na areia… um cão ou outro… a maioria em guias e correias… o calçamento de atletas semanais e diários, cada um em seu próprio esforço, numa corrida contra o tempo, na tentativa de barrá-lo em velocidade moderada… Havia bancos de madeira vazios àquela hora, em que a preguiça não movia quase ninguém à admiração e descanso. Passei a mão na superfície e grãos de areia caíram… alguns se prenderam à pele… esfreguei uma na outra e a ranhura libertou-a… Aquele era o mundo de Deus, criado para o nosso deleite… mesmo que o homem tenha deixado nele feridas — algumas cauterizadas, outras expostas — era possível vê-las, mas nem assim ocultavam as geniais e múltiplas facetas de vida a transpor o espaço… Sim, ele era original e criativo, e a manhã, talvez um pouco menos exuberante, indicava a majestade do artífice… Um quê de saudade sobreveio. Baixei a cabeça, olhos cerrados, e repeti algumas vezes: “obrigado”!… Esperei. O sol aquecia a face esquerda, e um reconfortante calor irradiou para o pescoço. O medo do bronze dividir o rosto me pôs em movimento. Caminhei lentamente. Retive o odor do mar. O balanço da maré. O azul pálido. O verde encardido. Retive o vaguear de urubus e gaivotas. O catar dos pombos. A solidão vadia pelos caminhos… Eu era o estranho no ninho. Com minha calça jeans, tênis e a camiseta da nova coleção do Galo. Entre shorts, bermudas e regatas, deveria atrair alguma atenção, mas os poucos olhares se revelaram acasos… Depois da temporada em São Paulo, voltar à cidade dos últimos anos trouxe a nostalgia… Quando parti de Belo Horizonte, queria uma vida menos agitada, e a praia configurou-se o destino. Mas, depois… Veio-me a analogia: havia saído do purgatório, estava em direção ao paraíso e, subitamente me vi cair no fogo do inferno. Foi uma via-profana… onde o céu era o limite, mas tive de me contentar na companhia dos demônios… A imagem fez-me mover os lábios, num minúsculo espasmo “a la Duchenne”… Um homem fumava. Mantinha o cigarro à altura da boca, o cotovelo apoiado no joelho, e o pé esquerdo sobre um dos bancos. Ao passar, desejei “bom dia”, sem resposta… à frente, um casal e seus cães. Senti-me um ET quando nossos olhares se cruzaram. Balancei a cabeça, mas logo vi que eram reféns dos mascotes e contrapeso dos seus músculos… Um ciclista, depois corredores, e a etiqueta não era suficiente para tirar a casca deles. Quando muito, atiravam-na aos meus pés, na esperança de me ver no chão… A grama aparada. Arbustos podados. Sanitários recém-instalados. Tudo pronto para receber turistas e nativos, até mesmo fezes e urina que o tempo e a faxina ainda não deram conta… Os quiosques estavam em feira. Cadeiras, mesas, guarda-sóis. O gelo triturado. O tilintar dos utensílios. Caixas e latas rilhando. Um comando aqui e outro ali. Passos silenciados na areia… A qual mundo está o prisioneiro na caixa?… Novo banco. Areia. Gestos. Sentei… Por mais estático ou em movimento, o olhar é o que definia as coisas…Se seus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se forem maus, todo o teu corpo será tenebroso… E não havia como escapar dessa sentença… Olhar o horizonte diminuía o desejo de olhar abaixo ou os lados… A visão perdida no silêncio distante, na imobilidade, na expectativa de que quanto menos se move mais próximo da perfeição está… o movimento tem muitos riscos… Caminhei. Entrei em ruas ainda sonolentas… apenas o vento a mover as copas e espalhar os papéis e plásticos a lugares incertos… Dobrei à direita. Na esquina contrária havia três velhinhas, na casa dos setenta e tantos, a rodear o muro. Uma delas ainda estava de pijama. Apontavam. Conversavam. À distância não distingui a razão. Foi quando vi um portão de garagem enjambrado. Aberto como uma lata de sardinhas pela metade. Não foi difícil imaginar o estrago do pé-de-cabra. As mulheres apontavam para lá e depois para cá. Uma viatura chegou, e uma delas disse “mas que demora!”, não sem antes se certificar de os guardas estarem na posição de não ouvirem o reclame. Pelo andar da dupla de mulheres, nem se ela tivesse sussurrado em seus ouvidos modificaria o seu estado… Continuei. Um ciclista veio de encontro, passou rente a mim: “Lá vai o buraco de bala”… Soltei um riso amarelo… O que era aquilo?… Piada, ameaça, loucura?… Um cão manquejava na calçada… Havia algo de triste… enquanto outros, bravos e megalômanos, entre grades e chapas, latiam… cada um com o seu destino… Um andarilho me pediu ajuda… Não além dos dois metros de distância… Fiz sinal de me aproximar, mas não esperou. Levantou o braço e fez o gesto de “deixa pra lá!”: “Não quero lorota de crente!”
Tinha sido a Bíblia suficiente para irritá-lo?… Estava duro, era verdade. Havia dias não tinha dinheiro… Mas ele não queria contato… Não valia o pão com margarina… Vi montes de lixos, móveis queimados nas esquinas, tudo revirado que nem os cães se arriscavam a mexer. Mas a Serra imponente ao fundo apontava para um dia onde tudo seria restaurado, e nada de feiura, sujeira ou pobreza… Também não haveria ostentação e desperdício… a medida certa, sem faltar ou sobrar…
Ouvi a métrica e simetria impecáveis… as notas do órgão… e o refrão: “Santo, Santo, Santo…”.
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Nota: texto publicado originalmente na Revista Amplitude
Jorge F. Isah