Radicalismo radicalmente radical

Antes, o radicalismo se mostrava através de atitudes não usuais dos indivíduos, fora da norma social, política, cultural ou o raio que o parta. Comportamentos e exemplos adquiridos por milênios e comprovadamente exitosos, não por um tipo de pragmatismo estúpido e fatal, mas pelos melhores padrões da lógica, da razão, da moral e do amparo, hoje são vistos como exceções, pontos fora da curva a serem devida e legalmente extirpados da sociedade. Senão, vejamos:

Se o cara quer parecer descolado e moderninho, ele tem de ter um ou dois desses elementos, se possível, todos, não importando idade, posição, constrangimento ou vexame:

  1. Possuir uma tatuagem. Se puder, muitas. O ideal é ocupar cada espaço do couro com rabiscos, desenhos e símbolos. Se bois e vacas, escravos e bandidos tinham uma, por que não elevar à potência máxima os arabescos a identificá-lo como espécime liberto de convenções? Mesmo que o comportamento signifique exatamente o oposto?
  2. Ser monogâmico é sinal de piada, de fazer estourar os bofes de tanto rir. Casar-se virgem, então, é a prova cabal de que a pessoa é escrava e encontra-se subjugada pelos valores cristãos, patriarcais e machistas da sociedade. Ninguém que se preza deve manter-se virgem e, quanto mais cedo iniciar o ritual de acasalamento, seja com o sexo oposto, um animal ou tubérculo (há os que defendem a galhardia de se relacionar com pedregulhos e rochas), mais cedo se libertará e arrancará as algemas a mantê-la presa. Nem que seja a fórceps. Mas o que importa?!
  3. Desde os filósofos pré-socráticos defende-se, e não podia ser diferente, o princípio de o homem analisar e entender a realidade. Cabia à arte (teatro, literatura, pintura, escultura etc.) adentrar os caminhos do sonho e magia, entretanto, sempre baseada em fatos, na vida, na realidade. A psicologia moderna associada às ideologias e suas ramificações tem levado o indivíduo à abstração quase absoluta e mal concebida; em outras palavras, o que a realidade prova ser real (desculpe-me a redundância, mas é preciso) requer ser destruído em prol de uma ficção elaborada equivocadamente, em que a pessoa abandona cada vez mais a sanidade e lucidez em prol dos delírios e das psicoses. Não é sem razão o fato de milhões, bilhões de pessoas viverem às duras penas através de psicoativos, sejam drogas legais ou ilegais. E o sono é dormir acordado.
  4. Antigamente, costuravam-se as roupas e outros tecidos para que parecessem novos; a falta de grana obrigava as pessoas a reparos ao invés do descarte. Mas “jenial” foi quando alguém resolveu lançar uma roupa de mendigo, esfarrapada, remendada, desfiada, por um valor dez vezes maior do que um produto intacto, e boa parte das pessoas aderiu ao modismo, apenas por rebeldia. Nas feiras, praças de alimentação e estádios de futebol é quase impossível não ver um maltrapilho a gritar palavrões e xingar a mãe do juiz, ou contar, a plenos pulmões, suas fantasias juvenis. A revolução tem seu preço e normalmente os tolos a financiam.
  5. A arquitetura vai de mal a pior. É quase impossível, salvo nos redutos exclusivamente históricos das cidades (que tenham, no mínimo, 300 anos), não nos deparar com algo dantesco, assimétrico e medonho. Edifícios como caixas de sapatos superpostas, caixinhas de fósforo agrupadas, quadros imperfeitos e retângulos desfeitos, sem contar as cores que mais parecem saídas das mãos de um orangotango epiléptico e cego. Mas, para quem se deslumbra com as obras de Gropius, Niemeyer e Bo Bardi, nada mais justo do que a admiração pelo kitsch, onde alhos e bugalhos se misturam em nome da pretensa originalidade e genialidade em ser brega e cafona. No caso de roupas e acessórios, eles se perdem inevitavelmente. Mas o que dizer de Brasília, da Bauhaus e do Sesc Pompeia?
  6. Ah! E Pollock, Dalí, Oiticica, Volpi, Mondrian e Duchamp, entre outros menos votados?… A colcha de retalhos da minha avó era muito mais digna e honesta, ao contrário da overdose de horrores desses iluminados, seduzidos pela vulgaridade.
  7. Não podia me esquecer dos piercings e alargadores, a tornarem-se cada vez mais exigência, quase uma obrigação, especialmente entre garçons, cozinheiros e balconistas. É quase improvável não se deparar com um (quando for um, existe a sorte de não ser atendido por ele), ou muitos, ou todos, exibindo-se desgraçadamente para o consumidor que, se esperto, dará o fora do lugar o mais rápido possível. Se antes, e não há muito tempo, animais domésticos e escravos utilizavam esses apetrechos a fim de serem presos ou conduzidos por seus senhores, será que esses… ah, deixa pra lá!, consideram o porquê de carregarem nos corpos essas estufilhas?… Claro que não!

Poderia ficar horas e horas enumerando as bizarrices e tontices do homem moderno — e das mulheres também. Ou acham que elas não têm o direito à sua parcela de “nonsense”? —, que outrora se considerava rebelde, livre e sem amarras sociais, quando, na verdade, apenas está embrulhado na própria arrogância, pretensão e desatino. De minha parte, e faz-se necessário observar, o radical é aquele que foge desses padrões descritos, em especial o cara que não tem medo de se dizer homem, sem a necessidade de eufemismos e de bajular os frouxos.

Jorge F. Isah

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