A falta de dentes e a falta de fé

Acredito que, quando minha mãe faleceu, ela já não tinha boa parte dos dentes. Era prótese. Bem feita, ajustada, fixa. Trabalho de altíssima qualidade feito pelo sobrinho dela, a quem minha mãe sempre elogiava pelo seu serviço primoroso. Se Deus assim permitir, também envelhecerei assim como minha mãe envelheceu. Sinto-me cada vez mais parecido com ela, pois, desde que fiz 50 anos, já quebrei dois dentes. Quebrados em épocas diferentes, mas ambos estourados numa mesma armadilha, a saber, um pacotinho de azeitonas sem caroço, mas que, para surpresa geral, ocultava ainda caroços.

Dentes quebrados da maneira que contei ocorrem com qualquer pessoa e em qualquer idade, não é mesmo? É que ambos os casos ocorreram logo depois que fiz cinquenta anos de idade. “Seus dentes são fortes – dente amarelo é dente forte”, ouvia sempre, desde criança, minha mãe, orgulhosamente, repetir essa frase dita por tantos e tantos dentistas que já me atenderam.

Quem cuidava dos nossos dentes sem dar trégua alguma era minha mãe. “Já escovou os dentes, menino?”, pergunta inescapável que ela nos fazia. Pelo menos duas vezes no ano minha mãe me submetia à “escovação cavalar”! “É para limpar bem os dentes!”, ela explicava. E dá-lhe bicarbonato com esfregão até o sangue sair. Aí, pergunto eu, quantos também não tiveram esse zelo em suas casas, ainda que não possamos dizer que elas estavam realmente certas nesse tratamento de choque?

Depois dos cinquenta, além dos dois dentes quebrados, quebram-me também as antigas obturações. Acho que posso entender tudo isso como indicadores de que já estou mais pra lá do que pra cá ou, como sempre me dizia a Filósofa urbana (minha mãe), “você já dobrou o cabo da Boa Esperança”. De qualquer maneira, depois que fiz 40, minha mãe fazia questão de dizer às minhas filhas: “Olha! Seu pai já deu dois tiros na macaca”! E, a cada ano que passava, ela aumentava o número dos tiros que eu dava na tal da miserável macaca.

Por eu ter terminado de reler o livro de Eclesiastes por esses dias e ter me deparado, mais uma vez, com os dois temas mais recorrentes do livro – o contentamento com a vida que se tem e a morte, que iguala a todos, ricos e pobres, sábios e tolos -, por isso, talvez, eu pareça estar tão morbidamente reflexivo. Acredito que Sócrates era quem pregava que “filosofar é preparar-se para a morte”. Qual a diferença, segundo o Pregador do livro de Eclesiastes, quando a morte visita o justo e o ímpio? É que aquele tem fé e descansa em Deus, único refúgio verdadeiro diante do que nos aguarda do outro lado. Fé na Sabedoria das sabedorias, que é Jesus. Só esta Sabedoria importa diante de todas as outras.

Ainda que comecem a me faltar os dentes, não me faltará a fé, não é mesmo? Ledo engano! Nestes dias, em que já se me quebram os dentes e as obturações, devo confessar que me vi na falta de uma fé mais vigorosa também. Logo eu, que pensava ser “guia de cegos, instrutor de ignorantes e mestre de crianças” (Rm 2: 17-24), vi-me surpreendido por não descansar na Graça. Ansioso e temeroso do dia de amanhã, peguei-me falhando em trazer à memória aquilo que deveria me dar esperança: “Eu quero ser o teu Deus e o Deus de tuas filhas”! Entendi que essa minha ferida exposta ocorreu para que eu pudesse ver o meu óbvio pecado e pedir perdão a Deus por esquecer que Ele está no controle de todas as coisas. Assim, devo lembrar que nenhum dente cairá da minha boca sem que seja da vontade dEle. Do mesmo modo, ver minhas filhas se aventurarem e baterem suas asinhas querendo conquistar suas próprias histórias é tão natural quanto alcançarmos uma boca banguela. Deus está nisso tudo, ensina o Pregador, e não descansar nessa verdade é nos apoiarmos sobre o vento. A minha sincera oração é que as minhas andorinhas possam procurar seus céus, enquanto, ainda que me faltem os dentes, jamais me falte fé!

Nota: A boca na imagem é meramente ilustrativa, ainda não é a minha.

Fábio Ribas

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