Lembranças, APENAS LEMBRANÇAS

Eu vivo como um sonâmbulo sob o céu de estrelas reluzentes.

Caminho sob o luar como lobo errante em busca da matilha.

Corro como uma lebre sobre as areias da praia, pairo com um carcará sob o céu azul.

Eu sou um sonho que perpassa pelo rosto da humanidade em busca de sentido, em caça constante da fé, formando egrégora de sonhos de um mundo melhor.

Eu tenho um sonho… eu vivo um sonho… eu sou um sonho.

Viver correndo pelas ruas estreitas e entre os becos e córregos, entre matas e campos.

Lembro os anos distantes, as brincadeiras de rouba bandeira, pique-esconde, roda pião, passar o anel, polícia e ladrão, das ruas mal iluminadas, das casas de cercas de arame farpado, do pular nos quintais alheios em busca das frutas que não plantamos, jabuticabas, abacaxis, mangas, goiabas entre muitas outras, afinal a fruta do vizinho sempre era mais doce e a adrenalina fazia o coração acelerar, era um sonho pura farra de moleques sadios e indomáveis.

Soltar pipas, papagaios, bete altas, finca e bolinhas de gude, futebol de rua, bola de meia,vestir a camisa do meu time sem medo, só sonhos, risadas, brigas que se resolvia com um caloroso aperto de mãos, era assim uma vida, um sonho.

Medo…

Só havia medo de assombrações, do escuro, das varas de Maria boa, das varas de Marmelo, e das varas de goiabeiras, os vergões no lombo eram troféus, mostrávamos toda nossa força, astúcia e liderança., eramos os reis da rua.

A veia artística nos carrinhos de rolimã, nos caminhõezinhos de lata de sardinha, nos boizinhos de manga verde, eramos felizes e não víamos as dores que moravam em cada esquina a estreitar-nos o futuro.

Olhar as estrelas, ver a lua imponente senhora do céu, imaginar bichinhos nas nuvens, não havia contas a pagar, TVs eram raras, a rua era nossa e nós as dominavam como se domina um bicho bravo ditávamos as regras, impunha o jogo  vencia e as vezes perdíamos, mas eramos livres.

Os portões a noite pareciam salão de bailes onde as mães, irmãs e irmãos  mais velhos se reuniam para um bate papo e o assunto não era novelas, big brother, a fazenda e sim apenas conversa sem intenção, apenas distração ao luar, as vezes vinha os boiadeiros tocando a boiada ,que ouriçavam as moças na esperança de encontrar um príncipe encantado tocando o berrante.

Jogar futebol no campinho feito a enxadadas e no terreno baldio, com traves de bambus, corríamos um time de camisa e o outro sem camisa, saiamos da escola em verdadeiros bandos de garotos e garotas a tocar campainhas e correr feito loucos, não havia maldade intencionais,  apenas zoeiras e apelidos  estranhos vindo Deus lá sabe de onde.

Os adultos se achavam os donos da rua pela sua posição econômica, eram os melhores os mais ricos, e nós eramos os felizes que não adoeciam na chuva, na enxurrada, na lambança na lama, que beijava escondido e só de pensar em ser descobertos, já nos imaginávamos mortos.

O tempo, este parecia andar bem mais devagar do que hoje, jogávamos bola o dia inteiro e ainda tínhamos tempo para brincar a noite, que também parecia longa e interminável, para dormir tinha que lavar novamente os pés pois ninguém calçava sapatos ou tênis, era pé no chão pisando os gravetos, as formigas, e outros bichos, caçando vaga-lumes e fazendo lanternas, durante o dia quando não tinha futebol corríamos atrás de borboletas apenas pelo prazer de rir em bando, era outro tempo.

Até as brigas daquele tempo eram diferentes, os inimigos eram apenas os adversários da rua diferente da nossa, a rua de cima  e a rua de baixo, inimigos de verdade eram os meninos que chegavam e as meninas queriam conversar, nossas namoradas ,que nunca sabiam que nós  as namorávamos.

Se fossem bons de bola eram bem-vindos por que reforçavam nosso time, as famílias em geral eram grandes para os padrões de hoje, sempre eram 5,7,9 e até 13 irmãos e os mais velhos funcionavam como olheiros de nossos pais e  também nossos seguranças enquanto os pais conversavam nos portões e nos pequenos grupos.

Os postes de luz pareciam estar a quilômetros de distância um do outro, apenas pequenas bolas amarelas que mal iluminavam uns poucos metros, mas a luz bruxuleava todos os dias, a água era carregada em baldes para encher caixas e tanques por que nunca tinha força, chuveiros eram uns regadores furados que enchíamos com a água aquecida no fogão a lenha que nunca apagava, pois ascender um fogo era um martírio insano.

Ninguém tinha medo  de vacinas, não havia a idiotia de hoje sobre o tema, a vacinação era feita na escola e os mais medrosos ficavam indo para o fim da fila para ver se seria esquecido e aquele revolver com a agulha na ponta não encontraria nossos braços, mas sempre tinha os vigilantes, aqueles dedos duros que olhavam as unhas grandes, os bagunceiros, era outro mundo, talvez até outro planeta e senão outra vida.

Olhando para trás não é  saudades, pois o tempo é inexorável, tem suas próprias artimanhas e intrigas, traça seu curso sem dar qualquer satisfação, interrompe, irrompe, liga, desliga a seu bel prazer todo e todos que faz a dança da vida seguir seu impulso e apenas ele tem as regras do jogo, e…

O tempo, este senhor sem rosto, insano, brincalhão, que prega peça todo o tempo e nos faz marionetes dele sem que possamos escolher nossos papéis no grande teatro da vida.

Há… eu tenho um sonho

Que o tempo não seja o senhor da vida,

Que as flores vençam as batalhas,

Que a violência mude para o abismo do mundo,

Que os amigos apenas sejam amigos,

Que os Amores se encontrem no fim das estradas,

Que a vida e apenas a vida exista,

Sim, eu sei é apenas um sonho que mora e vive nos corações humanos.

Adilson Geraldo Moreira

Respostas de 2

  1. Essa era a nossa realidade, bons tempos. Hoje fui ao posto vacinar
    E fiz um comentário com a enfermeira xatamente era o que eu fazia nis tempos da vacina na escola sempre voltava para o fim da fila.bons tempos, valeu por nis trazer essa emoção. Obrigado.

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