Estou olhando apartamento para comprar. Já vi vários, de todos os tipos, tamanhos e preços. Comecei pelos mais caros, até perceber que mal daria conta de comprar os mais baratos. Vi alguns que, em seus quartos, mal caberiam camas de solteiro. Nada de criados, cadeiras, ventilador de pedestal, nada, nada. Só as camas. Uma em cada, melhor dizendo.
Apartamentos no primeiro andar, com marcas de mofo no teto. Prédios ao lado de postos de gasolina, antenas de transmissão ou de bares que tocam funk dia e noite.
Em alguns casos, o apartamento até era bom, mas a rua ou o bairro davam medo. Deprimentes. Ou então era o congestionamento na rua, tão grande que mal daria para sair ou entrar no prédio.
Quando o preço é muito barato, dá para desconfiar. Os corretores sempre vêm com aquela conversa de que os proprietários estão se separando e precisam do dinheiro rápido, para dividir. Realmente, tem muita gente se separando, mas é muita coincidência que eu tenha me deparado com tantos casos.
Vaga de garagem é um grande problema. Em alguns condomínios dá morte. O vizinho para torto na vaga e o outro não consegue entrar ou sair. A criança riscou o carro com o manete do guidom da bicicleta, que estava sem a borracha. Os meninos se esbofetearam na quadra. Um morador acusa o outro de assediar a sua mulher. Sindico roubando. Porteiro bêbado. Interfone quebrado. A água acabou. O gás foi embora. Infiltração. Correspondência extraviada. Cachorro latindo a noite toda. É um inferno.
Pensando bem, vou comprar uma casa. Que tenha um terreno grande, com uma distância mínima de uns 200 metros do vizinho. Isso deve ser muito caro. Não sei quanto estão pagando por um rim “meia vida”, ou por um pedaço do fígado, para fechar a conta, pois se não for assim, não terá outro jeito. Também não confio em loterias. Mas já vou ali jogar.
Michel Salomão