Ouço falar de guerras e rumores de guerras, mas não existe um inimigo comum mais odiado e combatido do que a balança. Sim, a famigerada, opressiva e preconceituosa báscula, a desagradar gregos e troianos. Pode ser digital ou analógica, tanto faz. Ninguém se importa, desde que ela corresponda aos anseios mais íntimos e os desejos mais secretos. Aflige homens, mulheres e crianças com a mesma precisão e sem distinção. Se existe algo realmente democrático neste mundo é ela. Não se preocupa com etnia, cor, altura, se rico ou pobre, bonito ou feio. A ela basta apenas o peso, um peso, digamos, nada simbólico.
Quem nunca se assustou ao se deparar com esse objeto delator e mistifório após uma lauta feijoada ou tropeiro? Quem nunca trocou o lado da calçada ao vislumbrá-la depois de um rodízio de pizzas ou aquela lasanha? E o que dizer daquele gordinho, ou gordinha, correndo em seu encalço, aos tropeços, após algumas horas de dieta?
Quer queira, quer não queira, a balança é símbolo maior de uma geração empanturrada ou vazia, que não mede esforços para se esvaziar ou encher, a depender da revelação fria e calculista dos dígitos ou ponteiros.
Mais uma vez, me vi diante dela, em uma saga interminável onde, na maior parte do tempo, ela me derrotou inapelável e vergonhosamente. Não foi, porém, o caso a seguir.
Esta semana recebemos a visita de um sobrinho e sua esposa. Eu e minha mulher os levamos a passeio em Santos. Como a minha mulher é apaixonada pelo Monte Serrat, uma viagem pictórica em um bondinho morro acima, onde se instalou, no início do século passado, um cassino, tivemos de leva-los. Após percorrermos o lugar e de apreciar a vista do estuário do Porto, o centro histórico e quase toda a cidade do mirante, decidimos voltar. Na antessala do ponto de embarque havia uma balança, das antigas, em ferro fundido, inquebrável e quase inamovível. Rapidamente, subi e o ponteiro fixou-se no número 102. Estranhei, porque, pela manhã, havia pesado e era pouco provável perder 2 kg durante aquele dia. O sobrinho subiu, e os originais 110 haviam caído para 105.
As mulheres se animaram.
— Agora é a nossa vez!… Anda, sai logo! — disse a sobrinha postiça.
— Calma! Ela não vai fugir! — o marido respondeu. E foi logo puxado na marra.
O ponteiro oscilou, oscilou e cravou-se no 90. Ouviu-se um grito desesperador.
— O que foi?! — perguntei.
— Como é possível?!! Não engordei isso tudo! — ela quase deixou escapar algumas lágrimas de desespero.
Então, a minha esposa subiu. E lá estava o número 90, também.
— Meu Deus! — e foi logo descendo. Como se estivesse diante de algo diabólico.
— Essa coisa está estragada! — as duas falaram ao mesmo tempo, numa coincidência quase ensaiada.
Começamos a rir, eu e o sobrinho.
— Do que vocês estão rindo?!
Subimos novamente na plataforma e repetimos a medição. Eu com os mesmos 102 e ele com os mesmos 105. Foi a vez delas. Nada mudou em relação aos 90.
— É um complô! — a esposa do sobrinho denunciou.
— Ela não gosta de mulheres… — eu disse, entre risos.
— Não vai com a minha cara, é?! — minha esposa encarou-a, enquanto a balança permanecia alheia ao zunzunzum.
— Nunca mais volto neste lugar! — a outra pronunciou, diante dos olhares atônitos das visitas.
Não nos restou mais nada, a mim e ao sobrinho, além de rir. Até que ele recebeu uns tapas no ombro pela mulher, e achamos por bem, para o nosso bem, diga-se de passagem, cessar a provocação.
Morro abaixo, o silêncio era constrangedor. Aquela relíquia de sustos e alívios teria os dias contados, se as mulheres pudessem se vingar.
Jorge F. Isah