— Em quem vai votar?
O Robson, depois de alguns minutos em que trocamos a sinopse dos últimos anos de nossas vidas, me veio com essa.
— Eu?!… Em ninguém.
— Mas, por quê?
Sempre achei que certos adultos se pareciam com criancinhas que estão descobrindo o mundo e as coisas — com uma grande diferença, além da idade.
— Ora, porque não quero.
— Mas tem de querer.
Não quis usar a mesma tática.
— Não tenho não. Não existe nada que me obrigue a votar.
— Só depois dos setenta, meu amigo. Por enquanto…
Eu quis rir, mas o semblante encroado e inflexível dele me fez desistir.
— Ah, não quero discutir esse assunto.
— Por quê?
Lá vinha ele novamente com… ah, deixa pra lá!
— Para votar é preciso ter uma grande hérnia nos culhões.
— Ah?!
— Ter disfunção… nos países baixos…
— Mas do que está falando?
Raspei a garganta.
— A minha teoria é a seguinte: todo brocha precisa se convencer de que não é, e nada melhor do que futebol e eleições… como um Viagra emocional.
O Robson me olhou com cara de poucos amigos.
— Quer dizer que eu sou um?
— Se está dizendo.
— Eu não estou dizendo nada… você é quem está.
Por que a maioria dos temas sempre se tornava algo pessoal?
— Falei de maneira geral. Você é que se incluiu, não fui eu que o coloquei lá.
— Lá onde?
Perguntou, confuso.
— De ser… você sabe.
— Sei não.
Lançou um sopapo na minha cara.
— Da próxima vez que me ver, finge que não me vê.
— Será um prazer.
Respondi, enquanto esfregava o lado esquerdo do rosto. Já distante, o Robson tentava andar firme, mas vacilava nos passos.
Era por essas e outras que eu não gostava de me meter em política: era apenas uma troca de mãos. E a maioria dos eleitores, no fundo, é candidato sem horário eleitoral.
Jorge F. Isah