COR DE ABÓBORA

Meu irmão do meio era preguiçoso, não tinha, para o trabalho, a disposição para aventuras. Minha mãe raiava com ele chamava–o de Anequecir, a quem ele devia ter herdado tal preguiça.

Uma vez estive no barraco do meu avô, não parecia fazer jus a alcunha. Lá havia dezenas de tralhas empilhadas, tudo velho, sem serventia. Nunca mais o vi.

Após conflitos com minha mãe, meu irmão saia comigo para procurarmos carros para lavar. Batíamos de casa em casa. Chegou o dia. Um homem disse sim. Não acreditei. Um sentimento de pavor subiu-me pelas pernas, enrubesci, era a primeira vez. E se manchasse? E se fosse alto demais? E se ficasse ruim? Não pensei mais. Meu irmão não demonstrou preocupação, só estampava no rosto o cansaço pela peregrinação a procura dos automóveis. Um fusca empoeirado, parecia não sair da garagem havia dias. Peguei o balde nunca usado, enchi-o de água e comecei meu trabalho. Procurei o máximo não decepcionar.

Passei a catalogar clientes que, religiosamente aos sábados, os atendia. O fusca cor de abóbora, uma Variant II, um Puma laranja e um Corcel II novíssimo. Voltávamos para casa satisfeitos, cansados, mas com a sensação de compromisso cumprido.

Os dias de semana seguiam-se uma rotina em frente a uma clínica médica. Homens importantes, carros mais novos e mais dinheiro para nós.

Uma vez encontramos no assoalho do carro uns vinte cruzeiros, umas dez vezes o nosso trabalho, uns dez carros lavados, mais do que o dia todo. Peguei o dinheiro guardei-o, limpamos o carro e quando o doutor chegou, entreguei a ele o que havia achado. Ele me olhou com um sorriso de confiança, de agradecimento.

“Você é um bom menino” .

Eu era um bom menino, o doutor havia dito. Fiz uma coisa boa, a coisa certa. O dinheiro não era meu, não podia tê-lo. Fiquei mais feliz do que se tivesse ganho aqueles vinte cruzeiros. Tive a sensação de dever cumprido, orgulhoso, peito cheio, empinado. Essa atitude viria a se tornar o sustentáculo para a formação do meu caráter, de minha personalidade. Sabia que outras ocasiões apareceriam e teria a chance de ter o mesmo comportamento de felicidade.

Mais tarde descobri que, quanto a isso, formou-se nas pessoas um sentimento mais importante: o de orgulho. As pessoas, em fim, se orgulhavam de mim.

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