Minha mais remota lembrança de investidor data-se mais ou menos… Não posso precisar, sei que era miúdo e achava que tinha poder, e tinha. Meus irmãos precisavam de mim, bajulavam-me, afinal, eu tinha as mercadorias que eles queriam.
Meu estoque possuía três meizinhos, três pirulitos, seis ou sete balas enroladas, dois ou três doces de banana, duas pipocas e três ou quatro chicletes Ploc. Orgulhava-me da minha banquinha, até Coca-Cola atrevi-me a vender, devia ter uma só, um grande estoque, e nunca foi vendida. Meus clientes não eram lá tão luxuosos.
Havia um senhor que dava à minha irmã, mais velha, um cruzeiro para que fosse distribuído entre nós. Era um velhinho de uns setenta anos, andava como se as pernas tivessem amarradas uma na outra. A idade o fez encolher, não era mais alto do que uma vassoura. Era solitário e, de certa forma, tinha nos adotado como afilhados ou coisa assim.
O dinheiro vinha uma vez por mês, mas para nós, era muito. Parte desse dinheiro era gasto na minha “vendinha”. Esse dia, eu vendia tudo, e comprava mais. Nesse dia, também, eu recebia meus fiados, que eram muitos.
Nessa mesma época, a principal fonte de riqueza do meu “comércio” sucumbia à morte, Sr. Zé. Nós, meninos, não fomos ao enterro, não era coisa de criança, poderíamos não conseguir dormir depois. Veio-me de sobressalto que minha venda estava morrendo junto. Foi questão de tempo.
Não consegui manter meus irmãos, ávidos por balas e suas iguarias. Compraram toda a minha venda, nunca recebi. Aprendi, mais tarde, que uma dívida caduca, depois de algum tempo. A dos meus irmãos caducou, digo, morreu de tanto esperar.
Até hoje convivo com meus devedores, os amo, de uma forma diferente, amor de gente grande, ranzinza, sem bater, sem apanhar, mas é, com certeza, um grande amor.
Geraldo Hera