A trégua e o ludopédio

Em tempos de guerra, não poderíamos deixar de falar sobre algo que literalmente mexe com os ânimos e nervos das pessoas. Há comoções, análises, discussões acaloradas, profecias  — na maioria, palpites — e opiniões de todos os lados, normalmente sem qualquer conhecimento dos fatos e baseadas apenas e tão somente nas tendências ideológicas ou naquela diarreia pós pastel estragado. A guerra por si só não basta, é preciso haver combates em todo lugar —até nos chats do Onlyfans. E os dias se arrastam, enquanto imagens de um cãozinho abandonado, um velhinho desencantado, ou uma criança chorando, repetem-se à exaustão nas telas e touch screens mundo afora.

Não censuro quem age assim, é sinal de que nem tudo ainda está perdido, mas existe um componente de hipocrisia na identificação com o sofrimento estrangeiro e quase nada com a dor pátria. É mais fácil e seguro escolher por quem se solidarizar, não é?

Neste momento, milhares de velhos, crianças e animais sofrem tanto, ou quase tanto, como os ucranianos, sírios e cristãos — existem lugares, e não são poucos, onde o cristão é sistemicamente condenado à espoliação, tortura e morte, mas o mainstream finge não saber. E, talvez, a explicação esteja no pouco ou nada a se fazer com os gringos, enquanto o muito a ser feito aos compatriotas se ignora e mantém-se apenas nos holofotes de certas figurinhas carimbadas. Não faço generalização, pois, é evidente haver em todos os lugares bons e maus exemplos, mas uma parcela de pessoas cujo discurso é sempre lindo e altruísta, enquanto as ações estão centradas no vaso sanitário, é um lugar comum.

Quero voltar a 1914, o início da Grande Guerra, e um incidente a marcá-la mais do que as estratégias mirabolantes das Tríplices Entente e Aliança: há um silêncio quase obsceno sobre ele.  

Em meio aos combates, aproximou-se a época do Natal, alguns meses após iniciarem-se os prélios. Em Ypres, na Bélgica, onde ingleses e alemães se entrincheiravam, ocorreu uma trégua não oficial, decretada pelos próprios soldados. Enfeitaram os campos com motivos natalinos, entoaram canções natalinas, e os inimigos se uniram em uma grande celebração a fim de festejar e homenagear o nascimento do Salvador.

Durante seis dias, a zona de morte se tornou em lugar de vida, regada à mais simples e genuína alegria… Fico a pensar naqueles momentos onde as discordâncias, as rusgas, o ódio, o antagonismo e o belicismo foram substituídos por abraços, conciliação e paz, motivados por um símbolo, mas também o modelo, a figura, a congregar todos em um desejo fraterno…

Já imaginou Putin, Lula, Zelensky e Netanyahu formando o time “A”? E Starmer, Milei , Xi Jinping e Trump no time “B”? …

Só não pode chamar nenhum deles para juiz da peleja… É certo que a maioria tomaria cartão vermelho e a partida seria suspensa por falta de quórum.

Após o Natal, quão doloroso foi retornarem à guerra e cumprir ordens marciais, sob pena de, ao não o fazer, tornarem-se traidores e condenados à morte.

O fato de sempre haver em todos os lugares, alguns ou muitos a se oporem à concórdia — pelo íntimo desejo de ruína e extermínio — o bem acaba por se tornar em vaga lembrança perdida no passado… Basta ao homem procurar o bem. Pois, se procurar o mal, o achará em qualquer lugar. Mas, naquele interlúdio, houve uma  fortuna geral, a lembrar que nem tudo está perdido, capaz de tirar-nos do círculo vicioso, de um humanismo bélico e que muitos consideram a solução para tudo.

Não falo de opiniões e suas divergências, nem de gostos e vontades subjetivas, mas de algo objetivo e sem o qual ninguém dirá: “celebremos e nos fartemos, porque a vida não vale nada, e o apreço a ela é desmerecido”… e isso pode justificar a supressão  da vida, por um direito. Os mesmos que eregiram os campos de extermínio na Sibéria, em Dachau, ou na clínica Parenthood mais próxima: eram e são considerados direitos… Numa guerra que se renovar ano a ano e determinar o fim de milhões.  

Seja nas ruas, lares, morros e arranha-céus; seja qual for o método, se a vida não é valorizada, não existe trégua, nem vitoriosos, apenas os vencidos — não somente os perdidos, mas os que se consideram vencedores também… Sim, isso mesmo gafanhoto! Falo o óbvio, não de estratagemas e manobras novilinguísticas, que consideram tudo como vida — e preservar a todo custo — mesmo a morte.   

Aquele Natal, um século atrás, onde até mesmo uma partida de futebol foi realizada, pôs fim às tréguas não oficiais. Todos, a partir de então, voltaram às suas prisões, às conquistas as quais somos tangidos mas jamais chamados — tal como gado para o arado.  Porque o convite se pode recusar, mas o laço… ah, o laço!… depois do nó dado, não se solta, nem dele se sai.

A vida é simples, tem seus obstáculos e perigos, claro, mas a tornamos em algo tão insano, contraditório e inconciliável que não resta outra coisa senão a guerra.

E o placar nunca será 0 x 0.

Jorge F. Isah

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