Quem não gosta de ouvir um “causo”?

Eventualmente ouvimos alguns casos que podem ser recontados mil vezes, das maneiras mais criativas, corretas linguística e gramaticalmente, mas a essência sempre será a mesma, sejam verossímeis ou não.

Pois bem, pedi, a quem me contou, que escrevesse o que me havia dito. Prometeu fazê-lo. Mas ressaltei: seja rápido, porque posso esquecer de cobrar. E não foi preciso, pois dias depois, estava tudo no papel.

Antes, quero fazer uma ressalva: as pessoas têm convicções, que podem ser adquiridas e cultivadas internamente pelos mais diversos motivos e razões, até mesmo irrazoáveis. Por isso, antes de julgá-las pelo seu mérito, devemos admiti-las como fenômeno, e ponto final.

Vamos ao “causo”, então.

Havia um certo homem, um senhor quase ultrapassando os noventa e dois anos, que dispensado da obrigatoriedade de votar, insistia com o seu “dever cívico”, e não dispensava o auxílio da sua decana esposa, que o amparava em suas manquitolices.  Com dificuldade, num táxi ou carro amigo, chegava à seção. E aguardava a sua vez ­— mesmo com as benesses do Código do Idoso, tinha de dividir a preferência com gestantes, lactantes, deficientes físicos e gente que se dizia mais velha do que ele.

E quando chegava a sua vez, havia um silêncio que antevia uma catástrofe.

Se havia cinquenta eleitores, o nosso Matusalém percorria aquela fila, na lentidão de uma tartaruga. Ninguém ligava para os longos anos de trabalhos pesados e a decrepitude imposta pela idade. Era como se o tempo parasse, tal qual o sol parou durante a batalha de Josué.

E todos acompanhavam, respiração suspensa, retenção muscular e nervos à flor da pele, o caminhar lento e claudicante do ancião até a mesa um… depois, a mesa dois… e… finalmente… à cabine de votação. Mas, quando parava diante da urna, o tempo parecia congelado. Houve alguém que insinuou tratar-se de uma via-sacra do milênio. Por razões não investigadas, o zeloso cidadão tinha um candidato preferido, o que também é normal e compreensível.

Mas havia um detalhe: ele nunca trazia uma cola, anotação ou santinho. Tinha sempre um nome em mente: Ademir Lucas — velho político do Estado de Minas Gerais e da cidade de Contagem.

Aí residia o maior problema.

Sem enxergar bem e ainda praticamente surdo, além de não estar familiarizado com as últimas novidades políticas, o homem repetia com voz rouca, e às vezes incompreensível, o nome do candidato de outras eras, e que havia muito estava ausente da vida pública. Diante da urna, questionava se a imagem era mesmo do “Ademirzinho”. Reclamava que estava diferente, muito mudado, ao que todos da seção, quase em uníssono, confirmavam: “É ele sim! É ele! Pode votar!”.

Desconfiado — e o indicador se tornava ainda mais indeciso — parava, enquanto o burburinho se instalava.

Reza a lenda que somente o eleitor pode digitar o número na urna, e em hipótese alguma pode receber auxílio de ninguém. E a prova está nos sinais em Braille em cada tecla, para os completamente deficientes visuais.

O nosso Kirk Douglas relutava em digitar qualquer tecla e emperrava toda a máquina eleitoral. Os descontentes, sem exceção, imploravam para que o lema da bandeira, Ordem e Progresso, fosse restabelecido e o quanto antes pudessem voltar para as suas vidas, interrompidas compulsoriamente pela lei e suas punições. Em sã consciência, talvez um e outro — podemos incluir nesse rol o nosso arcaico eleitor — além da militância e cabos eleitorais, ninguém estaria disposto a esse exercício patriótico e largar mão das trivialidades cotidianas.

Graças à desconfiança do idoso eleitor — fiel ao seu princípio quase secular — o tempo máximo definido para cada eleitor para votação findava, e todo o processo tinha de recomeçar do zero. Nesse vai e vem, o tempo circulava como em um looping infinito.

Não é difícil imaginar a impaciência dos eleitores que se aglomeravam na porta da seção e dos que iam chegando e ampliando aquele estado de coisas. A verdade é que o nosso caquético cidadão repetia esse modus a cada pleito, eleições municipais, estaduais e federais. Ele não perdia uma.

Conhecido na cidade, no bairro, em tudo quanto era lugar, se tornou com o tempo e o passar do tempo, um verdadeiro “pé na minha janta”, e a coisa não se resumia apenas em relação aos mandatários dos três poderes. Ele não era um homem de restrições, quando o assunto fosse o voto.  Participava de todo tipo de eleição: da associação do bairro, do condomínio, do sindicato dos “chauffeurs”,  na igreja… em todos os assuntos que lhe diziam respeito ou não. E mesmo de casa, não se recusava a eleger os paredões do B.B.B. e A Fazenda, para o inferno das filhas que tinham de explicar — sem sucesso — que raios de pleitos eram aqueles. Votar estava no seu DNA. Algo inexplicável.

Mas, ainda não acabou. Tenha mais um pouquinho de paciência. A esposa do nosso marcador de cédulas faleceu. Aos noventa e dois anos, estava viúvo havia cinco. Estatisticamente, viúvos são em menor número em relação às viúvas. Dizem as más línguas, que todos sabem a causa da morte da mulher… a gente compreende. Nos últimos anos, as dificuldades aumentaram: cada vez mais desconfiado, se tornou também mais teimoso. Os antigos quinze a vinte minutos se multiplicaram, e não havia tentativa e explicação que surtisse efeito. Se tornou persona non grata, justo ele que apenas queria exercer o seu direito inalienável de votar.

O que me leva a refletir: o país segue sem conserto, enquanto milhões de brasileiros se recusam a votar — ainda que o façam de qualquer jeito — e o nosso Matusalém segue implacável com o seu simples voto, na esperança de ajuntar outros tantos e fazer a diferença. Ao menos, a fila de votação é melhor do que as do supermercado, SUS e bolsa-família.

Helvécio S. Pereira

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