George Orwell: O centro dos extremos

Em tempos de 1984 em pleno 2026, George Orwell está na “crista da onda”. Mesmo aqueles a ignorar seus livros, ensaios e artigos conhecem-no, ou deveriam conhecer, por conta de uma distorção holandesa, um reality show denominado “Big Brother”, aqui em terras tupiniquins apelidado singelamente de “BBB”. Qual a semelhança? Um grupo de “efemérides efêmeras” é confinado em uma casa sem contato exterior onde, grosso modo, exibissem-se nas mais fúteis e degradantes interações, “vigiados” simultaneamente por milhões de telespectadores, deleitosos em acompanhar o circo de horrores diuturnamente.

Pois bem, resumindo, Orwell escreveu um romance chamado “1984”, em que o “Grande Irmão” governa, observa, vigia, monitora e fiscaliza a vida de cada um dos cidadãos. Nada lhe escapa, e tudo é ordenado por ele. É o sistema de comandar, dirigir e reger atitudes, comportamentos e o pensamento de todos. Aos insubmissos, resta-lhes a punição eficaz e inflexível do Estado.

O “BBB” utiliza-se apenas do voyeurismo, a compulsão doentia e sistemática de observar outrem, um tipo de psicopatia normalmente amenizada pelo sinônimo eufemista “curiosidade”. O espetáculo consentido pelos participantes transforma-os em celebridades liquefeitas, que se extinguem tão logo são afastadas da tela. Nada porém impede outras pessoas de buscar os 15 segundos de fama e de alguns milhares de reais na conta, se submeterem aos olhares anônimos e estatísticos de brasileiros sedentos em satisfazer suas “manias”. Podem falar o que quiser, mas nada transformará moléstia em vigor, inquietação em bem-estar, e por aí afora.

Mesmo sem querer, George Orwell é o pai de um filho bastardo, nascido e crescido à sombra de uma Espirradeira, sem a beleza delicada das flores rosa clara. Papai Orwell deve estar se revirando no túmulo, pois, a despeito dos acertos em suas análises e previsões terríveis, diga-se, para o futuro — o nosso hoje e agora —, os tais holandeses, idealizadores da bizarrice televisiva, superaram em muito as desgraças previstas pelo oráculo inglês.

Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, nasceu em 1903, na Índia Britânica, e faleceu em 1950, em Londres. Escritor sagaz, perspicaz e bem-humorado, era marxista e chegou a lutar nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) na Guerra Espanhola, ao mesmo tempo em que criticou veementemente o stalinismo soviético e o totalitarismo de forma geral. Também são famosas as suas críticas aos libertários e progressistas esnobes e burgueses — uma esquerda festiva, rica e hipócrita, a seu ver — nos mesmos moldes de muitos empresários e artistas brasileiros, com seus discursos empolados e práticas diametralmente opostas.

Com isso, não estou a eliminar as contradições de um pensador como Orwell, mas o fato de todo ser humano também amargar suas incongruências; a diferença é, hoje, infelizmente, em quase qualquer lugar aonde se vá e haja o indício de um debate, não se ouve nada além de preto no branco e branco no preto; não se permitem mais os espectros cinzas, muito menos pode-se tolerá-los. E tanto de lá, da esquerda, quanto de cá, da direita, Orwell é reivindicado correligionário, e suas ideias antagônicas jogadas para debaixo do tapete e tidas por “interpretações equivocadas”. Entretanto, estão lá, para quem quiser ler, meditar e ponderar sem restrições. Mas assim é o homem e a humanidade… e o desejo de se uniformizar o pensamento, mesmo o de um único indivíduo, é tirar-lhe a capacidade de crescer, arrepender-se e ressignificar a própria vida. Via de regra, ninguém, nem mesmo governos e sistemas, pode impor isso.

Deixemos então Orwell falar por si mesmo. É o melhor a fazer, mesmo por frases curtas e pensamentos reduzidos; contudo, em sua vocação sintética ele tem muito a dizer, com ironia crítica e satírica, mais do que a maioria é capaz de compreender e aceitar, não nessa ordem, pois, para muitos,  a verdade é como o Papa-Léguas perseguindo o Coiote¹, e não o contrário.

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Nota: 1 – Papa-Léguas é uma série de desenho animado americano criado pela diretor Chuck Jones com histórias desenvolvidas pelo escritor Michael Maltese. Teve seu primeiro episódio exibido no dia 16 de setembro de 1949.

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FRASES DE GEORGE ORWELL

“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”

“A maneira mais rápida de acabar com uma guerra é perdê-la”

“Quando se diz que um escritor está na moda, isso quer dizer que ele é admirado por menores de trinta anos”

“Pensamento duplo indica a capacidade de ter na mente, ao mesmo tempo, duas opiniões contraditórias e aceitar ambas”

“O crime de pensar não implica a morte. O crime de pensar é a própria morte”

“A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Quando se concorda nisto o resto vem por si”

“Quatro patas bom, duas patas ruim”

“Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam”

“A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”

“Toda propaganda de guerra, toda a gritaria, as mentiras e o ódio, vem invariavelmente das pessoas que não estão lutando”

“Descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes”

“A ideologia anima os homens padronizados, que pensam em slogans e falam em balas de revólver”

“Os melhores livros são os que dizem o que já se sabe”

“Algumas ideias são tão estúpidas que apenas um intelectual poderia acreditar nelas, já que o homem comum nunca se faz tão tolo”

“Se você quer manter um segredo, você também deve escondê-lo de si mesmo”

“Toda piada é uma pequena revolução”

“O problema da competição é que alguém vence”

“O maior inimigo da linguagem clara é a falta de sinceridade”

“Se as pessoas não conseguem escrever bem, então não conseguem pensar bem. E, se não conseguem pensar bem, outras pessoas pensarão por elas”

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Jorge F. Isah

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