Sopinha de Letrinhas

Duas amigas não se viam havia muito, na verdade, quase uma década, e simplesmente trombaram em uma esquina.

— Querida! Há quanto tempo?!! – disse a Primeira, efusiva e calorosa.

A outra, vamos chamá-la de Segunda, meio constrangida e sem graça, demonstrou uma certa irritação com o encontro.

— Oi… Como vai?…

Se queria dar uma  ducha de água-fria, o tiro foi certeiro. Mas a Primeira recuperou-se logo.

— E a vida?… Como estão os meninos e o Cauê?

A Segunda, nitidamente agastada e com os nervos à flor da pele, atacou-a ríspida:

— Olha, você parou no tempo?! – pôs as mãos nas cadeiras e sacudiu-se agitada — … Não percebe o que está dizendo?

— Como assim?!… — encabulada, não compreendia a reação meio intempestiva da amiga.

— Ora, você me chama de querida, quando por educação deveria se referir a mim como queride. Depois chama de meninos os meus filhxs, quando sabe que tenho filhes, a despeito de, no passado, eles terem sido filho e filha, depois se tornaram dois filhos, e em seguida duas filhas… e tudo se tornou igualitário em casa, de sorte que não tenho filho ou filha, ou filhos, ou qualquer outra bobagem ultrapassada, mas tenho filhxs, se preferir filhes… Hoje, estamos todos livres dessas imposições, entendeu?!

A Primeira, aturdida com o bombardeio verborrágico da amiga — raios!… Será que poderia chamá-la assim sem receber outra avalanche de tagarelice? — esperou recuperar-se, e prosseguiu:

— Bem, desculpe-me! Não quis molestá-la… ops!… desculpe-me de novo, molestá-lch…

— Tsc…tsc..tsc… — deu um tapa na própria testa — Não é “lch”, mas “lx”… troque o “ch” por “x”, mas parece que você tem muita dificuldade em pronunciar o “x” então use o “e”, molestá-le, pois o sentido permanece o mesmo, e fica mais fácil para mentes menos treinadas.

Por que a preferência por “x” e “e”? Não poderia ser “ss”, “sz”, “ii” ou até mesmo “ps” ou outra coisa qualquer?

— Sim… Vou tentar… — pensou em voltar à normalidade coloquial, sem saber se conseguiria ou não, após respirar fundo e por alguns segundos.

— E o Cauê, como está? — enquanto pensava: “ainda bem que Cauê já é neutro… ou será que o “ê” no final não representa a neutralidade do “e” sem o acento?…. — Ah, vou encurtar o papo”, sentenciou.

— Ele não se chama mais Cauê, mas Cauêe… — revelou séria a Segunda — Depois de muito tempo com o tratamento psicológico e terapêutico, chegou à conclusão da necessidade de acrescentar o “e” como forma de se distanciar do passado… do ser pouco evoluído que era.

A Primeira, sem entender bulhufas, permaneceu calada. A outra prosseguiu:

— Estamos separados… faz tempo. Ele se descobriu mulher durante as consultas, e eu me descobri homem…

A Primeira, disse de si para si: Uai, por que a separação? Era um casal que apenas mudou de lado, ora.

— Mas posso voltar a ser mulher, permanecer homem, ou me tornar outra coisa, já que sou livre de corpo e alma – concluiu a Segunda.

A primeira, inculcada com o discurso da amiga, ex-amiga, amigo, ou o raio que o parta, imaginou dando-lhe as costas e sair em disparada, sem olhar para trás.

— Ele agora é mulher?… E você, homem?

— Sim, por quê?… Tem algum problema?…

— Não, não… É que ele parecia tão machão e você tão… é… deixe-me pensar… feminina…

— Nada me impede de ser feminina e homem, nem ele ser machão e mulher… Tudo isso são rótulos e nada mais. — cuspiu no chão e limpou a boca com as costas da mão esquerda.

Depois disso, pensou a Primeira, o que fazer?

— Bem, Vou indo… Tenho um compromisso…

A outra encarou-a de alto a baixo, detendo-se nas partes salientes e proeminentes. Reforçou o tom de voz, quase vibrando-a em cada sílaba:

— Humm… Você está muito bem, amadureceu sem apodrecer ou estragar nada… está bonita… Abandonei a minha namorada semana passada… A gente podia prolongar o nosso papo em outro lugar, o que acha?

—Eu?!!

— Sim. Por que, não?!! — cruzou os braços no peito, e a carótida quis pular do pescoço.

Encurralou a Primeira com um olhar pétreo.

— Acabei de me descobrir homem…

Deu no pé, rápido como um corisco, antes da outra mudar a identidade novamente.

Jorge F. Isah

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