Na empresa onde trabalhei havia uma grande unidade operacional na qual funcionavam os setores de obras, informática, arquivo geral e transportes, sendo que no último, localizado no subsolo, abrigava toda a frota de veículos e seus respectivos motoristas, que tinham uma sala com TV e alguns sofás, onde alguns deles aproveitavam para tirar uma soneca. Mas era o café que fazia o maior sucesso naquele local, e não adiantava explicar que o pó utilizado era o mesmo distribuído aos outros prédios: muita gente aproveitava a passagem pelo lugar para provar o famoso café, e acabava concordando que era mesmo diferente.
A atração era preparada por um dos motoristas, que chegava por volta das 6 da manhã e colocava a água na grande máquina, onde depositava pelo bocal a quantidade exata do pó marrom, misturado com o açúcar, deixando ferver tudo junto, sendo este o segredo, segundo ele, mas que tentaram replicar em outras unidades sem obterem sucesso.
Acontece que uma das secretárias do setor de informática passou a chegar mais cedo naquele prédio, e foi verificar se o famoso café estava pronto, quando presenciou uma situação inusitada: o tal motorista estava “batizando” a mistura do pó com o açúcar, ainda na caneca, com o ácido úrico de coloração amarela produzido exclusivamente pelo seu órgão excretor, o qual o balançava com o propósito de extrair até a última gota, para depois derramar cuidadosamente o conteúdo na máquina.
Mas não foi somente naquele dia: nos seguintes, ela acompanhou, escondida atrás das cortinas, o ritual que acontecia sempre no mesmo horário, sem que o motorista pudesse vê-la. Na quinta-feira ela comunicou ao supervisor local e, no dia seguinte, ambos ficaram na espreita, a fim de flagrar o meliante.
Naquela época não existiam smartphones, e as câmeras não eram digitais, o que obrigaria a utilizarem flash naquele ambiente mal iluminado, além do fato de que o “click”, com o seu barulho característico, denunciaria as suas presenças, e assim foram procurar o gerente, que lhes garantiu que medidas severas seriam tomadas.
Resultado: o escândalo tomou proporções apocalípticas, mas o motorista foi apenas transferido de prédio, pois era parente de um diretor importante e, dali em diante, todos passaram a reclamar, com nostalgia, que o café já não era o mesmo.
Michel Salomão