CIAO, AMICI!

Um velho amigo está perdendo a memória. Começou com algumas falhas ocasionais, que a princípio pensamos que estivesse brincando. Está com 72 anos e o conheço há mais de 46. Passamos bons momentos juntos. Um dia desses, saiu para a rua caminhando e não conseguiu retornar. Os parentes tiveram que buscá-lo. Ontem, estávamos conversando normalmente quando ele me perguntou quantos filhos tenho. Respondi “dois” mas, obviamente, ele já sabia disso, e em seguida perguntou se eu tinha netos. “Vinte”, menti, e pela sua expressão quase indiferente percebi que estava “voando”. Minutos mais tarde, retornou ao normal.

O pai de um ex-colega da escola começou conversando com o espelho. Ele devia ter uns 65 anos na época. Os parentes achavam engraçado, mas as conversas foram ficando mais longas e animadas, até que um dia ele passou a não mais reconhecer aquele personagem que estava refletido. Perdeu a sua referência.

Esse velho amigo às vezes entra em um supermercado, pega um alimento, abre a embalagem, começa a comer e vai embora, não se lembrando de pagar. Os comerciantes já conhecem e mandam a conta para os irmãos pagarem. Certa vez, defecou nas calças, no meio da rua e não se deu conta do que havia acontecido.

A sanidade mental é um dos nossos bens mais preciosos. Mais do que a mobilidade, a visão, a audição, o olfato, o paladar, o desejo sexual. Algumas pessoas gostariam de apagar a memória, de eliminar os pensamentos (maus), para se esquecerem dos dramas que viveram. Prefiro mantê-la intacta, e procuro acreditar que, apesar de tudo, a vida hoje é melhor.

Michel Salomão

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Categorias

Mais destaques

Posts relacionados