Sim, sou mestre em Israel, fariseu de linhagem, mas caminhei nas sombras como quem comete um crime. Meu crime era a fome que o cumprimento rigoroso da Lei não conseguia mais saciar. Cumpria a Lei, mas estava sedento de Deus.
Era noite. Ele não estava cercado por multidões. Estava lá, calmo, como se a escuridão fosse sua aliada. Minha voz hesitou, mas saiu:
— Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não estiver com ele.
Comecei com o reconhecimento intelectual, com a lógica dos sinais. Eu queria uma resposta que coubesse nos pergaminhos que estudei. Mas Ele não debateu, quase ignorou minha fala. Fui atravessado por sua afirmação.
— Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus.
Quase ri, um riso nervoso, seco, de quem não sabe o que dizer.
— Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez? — foi a minha (ridícula) pergunta.
Como um homem velho como eu, com as juntas já rígidas e a barba grisalha, pode voltar ao ventre materno? — pensei. A imagem era absurda, quase ofensiva à minha dignidade de magistrado.
Ele me olhou com paciência, me fez sentir como uma criança que tropeça nas primeiras letras. Falou do nascimento da água e do Espírito. Falou de um vento que sopra onde quer.
— Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O vento sopra onde quer, ouves o barulho que ele faz, mas não sabe de onde vem, nem pra onde vai; assim é o que é nascido do Espírito.
Naquele momento, percebi que toda a minha estrutura de “certo e errado”, de rituais e genealogias, de festas e dias santos, eram apenas uma gaiola religiosa.
Como eu, um mestre da Lei, não entendia o básico? E Ele parece que leu meu pensamento. Perguntei:
— Como pode ser isso?
— Você é mestre em Israel e não compreende estas coisas?. .. Se vocês não creem quando falo sobre coisas terrenas, como crerão se eu lhes falar sobre as celestiais?… Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna.
Então, o tom dele mudou. Ficou mais profundo, carregado de uma urgência. “Levantou a serpente…,” “seja levantado…”, que significava isso? Naquele momento meu coração quase parou. Ele proferiu palavras que ainda ecoam na minha mente, fazendo minhas mãos tremerem sob o manto:
— Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
Eu vim buscando uma explicação sobre sinais, e Ele me entregou o coração do Pai em afirmações profundas.
Ele falou sobre a luz. Disse que os homens amaram mais as trevas porque suas obras eram más. Senti o suor frio na nuca. Eu estava ali, afinal, escondido na calada da noite. Eu era um dos que temiam a luz? Ou eu era aquele que, por amar a verdade, estava finalmente vindo para ela, mesmo que aos tropeços?
Saí de lá antes que o sol nascesse. O caminho de volta para casa parecia o mesmo, mas meu mundo tinha mudado. Eu ainda sou Nicodemos, o fariseu. Mas, pela primeira vez em décadas, eu não sinto que estou apenas cumprindo um dever religioso.
Sinto que algo em mim começou a respirar pela primeira vez. Ainda não entendo tudo, mas agora sei: fui na escuridão para me esconder, mas voltei com o Sol da Justiça brilhando em meu peito.
Seria isso o meu novo nascimento?
Aldair R. Santos