Meu caro velho Eu de 58 anos:
Como está, amigo? Escrevo com dedos pequenos esta carta a um futuro distante, navegando pelas águas incertas do tempo (desculpe a letra).
Pergunto a você, com a curiosidade sincera de quem acabou de descobrir a imensidão do mundo, se os sonhos (serenos ou grandes, nobres ou infantes) ainda vivem acesos no seu semblante? Ou será que o peso dos anos apagou o brilho dourado das nossas tardes?
Como hoje faço, você ainda corre pelas calçadas com descuidada alegria? Ri dos pequenos tropeços e faz travessuras no dia? Brincas inventando bichos, castelos e barcos de vento com as nuvens no céu? Ou a rotina cinzenta do dia te prendeu a um escuro véu? Diga-me se ainda sabes olhar para as estrelas sem ter pressa de ir embora (quem sabe, guardar uma delas no bolso), e se os teus pés ainda reconhecem o caminho da liberdade.
Você bem sabe, não quero ouro, riqueza ou palácio, não quero a fama que passa como sopro, nem o brilho falso de promessas sem valor. Quero apenas certeza e calor: a certeza de que o tempo não te endureceu, o calor de saber que o menino de hoje não virou uma ilha isolada, um silêncio triste ou uma casa de portas fechadas. E a tua fé? Ainda perseveras?
Quero saber se, aí no fundo do peito, onde o mundo tenta colocar pedras, ainda reside intacto o amor.
Assinado: seu pequeno Eu, cheio de brilho e esperança.
P.S.: Hoje fui na igreja e meu coraçãozinho ficou deslumbrado com Deus.
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Meu caro pequeno Eu de 8 anos:
Recebo alegre teu gesto inocente, que atravessou bravamente tempo, mar, vento e estação.
Tua cartinha chegou-me reluzente, tão viva, pura e presente, feito abraço quentinho de criança guardado para sempre na palma da mão. Ouvir tua voz suave em meio ao barulho dos meus dias foi como acender uma luz em noite sem lua.
Não, meu pequeno, não deixei que as dores da vida matassem as mil cores que davas ao mundo. Guardei cada uma das tuas estrelas nos bolsos do meu casaco gasto, e o teu sorriso fácil continua sendo o meu bem mais profundo, o meu refúgio quando o cansaço tenta me dobrar.
O menino em mim nunca se escondeu, ele vive aqui dentro, às vezes com os joelhos ralados pela vida, cansado dos caminhos longos, mas sempre firme. Quando a vida me aperta na noite fria e os problemas parecem gigantes, ele pega a tua curiosidade emprestada e acende outra vez a minha sorte. É essa criança aqui dentro que me ensina a olhar para Deus e lembrar que a tempestade sempre passa.
Sim, minha fé ainda persevera e até cresceu, pois Deus é fiel e cuida dos seus. E quando me chegam lides duras, lutas diárias e dias cinzentos, me consola a tua lembrança, de uma fé singela e pequenina, que cria sem reservas. Sim, ainda há fé, amor, brilho e esperança, porque, apesar dos cabelos brancos e das marcas no rosto, graças ao bom Deus, ainda em mim reside a mesma linda criança!
Assinado: seu velho Eu, que ainda brilha e espalha esperança.
P.S.: Hoje, todo o restante da nossa família será batizada na igreja.
Aldair R. Santos
Em verdade lhes digo: se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças, de maneira nenhuma entrarão no Reino dos Céus.” (Mateus 18:3 – NAA)